sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Retratos Londrinos - Charles Dickens



Charles John Huffam Dickens nasceu em 7 de fevereiro de 1812 na cidade de Portsmouth, e logo na infância sentiu os efeitos da Revolução Industrial. Seu pai, chamado John, era um funcionário da marinha que vivia endividado. Em 1822 a família decide se mudar para Londres na esperança de melhorar de vida. Dois anos depois John Dickens vai para a cadeia por dividas. Elisabeth Dickens, sozinha a própria sorte com o filho resolve vender os pertences da família; o jovem Dickens, apaixonado por leitura desde cedo, viu seus livros serem vendidos para saldar as dividas. Em 1824 ele consegue emprego em uma fabrica de graxa como colador de rótulos. Em 1836, casa-se com Catherine Hogarth, filha do editor do Evening Chronicle. Naquele mesmo ano ele finalmente pública seu primeiro livro: “Retratos Londrinos”“Sketches by Boz” (O nome era devido ao costume de Dickens em assinar seus texto com o pseudônimo “Boz”). A obra teve sucesso imediato e abriu as portas para Dickens emergir como um dos maiores escritores da era vitoriana.

O livro é dividido em três partes: “Cinco retratos de nossa paróquia”, “Cenas” e “Personagens”. O estilo descritivo da narrativa, adornado pela ironia e sarcasmo característicos do autor, são os pontos fortes da obra. Em alguns momentos Dickens expõe a tendência humana de querer extrapolar os limites do “eu” na busca pelo ideal que fazem de si próprio. Essa atração pelo objeto fátuo invariavelmente remete ao ridículo.

Obviamente que nem todos os textos são interessantes, alguns poucos são chatos, mas a maioria faz a obra valer a pena. Um dos mais belos trechos está no conto “Divertimentos Londrinos”, publicado no Evening Chronicle em 17 de março de 1835. Nele o autor menciona o costume de um casal de idosos em admirar seu jardim durante as tardes; e o que se inicia como uma simples narrativa, aparentemente banal, termina adornada por um tom poético bem característico do autor:

“Num entardecer de verão, depois de o velho casal já estar exausto de tanto andar de um lado para o outro e do grande regador já ter sido enchido e esvaziado umas quatro vezes. Você pode observá-los sentados lado a lado, juntinhos e felizes, em sua pequena e aconchegante casa, aproveitando a paz do crepúsculo e admirando as sombras que se lançam sobre o jardim. Pouco a pouco, o lugar vai ficando cada vez mais envolto nas sombras. As pétalas multicoloridas das flores mais alegres vão, lentamente, escurecendo – uma boa representação dos anos que já se passaram silenciosamente diante de suas vistas e que, no caminho, acabaram eclipsando os matizes mais brilhantes de suas esperanças no futuro e de uma juventude que se esvaneceu.”

Dickens é um dos maiores especialistas em retratar a marginalidade da sociedade inglesa do século XIX. Obras como “Grandes Esperanças” e “Oliver Twist” o imortalizaram como um dos maiores escritores da era vitoriana. Ninguém menos que Fiodor Dostoievski era um grande admirador de seus textos. Durante toda a obra é possível perceber a intenção do autor em criar, não personagens, mas caricaturas urbanas da sociedade vitoriana. 

Impossível não perceber o tom de critica no trecho que abre a crônica “O primeiro de maio”: “Limpador, limpador, lim-pa-dor!”. Naquela época o governo havia proibido os limpadores de chaminés de percorrer as ruas anunciando seus serviços aos gritos. Dickens explorou a polissemia desta proibição ao destacar um trecho, publicado no The Library of Fiction em 31 de maio de 1836, seguido das palavras “propaganda ilegal”. É como se a imundice da sociedade vitoriana tivesse o consentimento do governo. Outro trecho onde é possível perceber a transição sutil entre critica e narrativa esta no conto “À noite nas ruas”, publicado no Bell’s Life in London em 17 de janeiro 1836:

“Se quisermos conhecer as ruas de Londres em seu momento mais glorioso, devemos observá-las em uma escura, sombria e triste noite de inverno (...). A multidão que passou de um lado para o outro durante todo o dia vai minguando rapidamente. E o barulho dos gritos e discursões que vem das tavernas é praticamente o único som a quebrar a quietude melancólica da noite.”

Dickens produz um quadro vivo da Londres vitoriana o que lhe permite, como observador, reafirmar as palavras de Edgar Alan Poe: “A multidão inabarcável onde ninguém se desvenda todo para o outro e onde ninguém é para o outro inteiramente impenetrável”.



Publicado originalmente no blog Café Musain.






Por 
Tiago Rodrigues