quinta-feira, 21 de maio de 2015

Resenha - O Perfume, a história de um assassino

“O perfume vive no tempo, tem sua juventude, a sua maturidade e a sua velhice. É somente quando nas três diferentes idades o seu aroma é igualmente agradável ele pode ser considerado realizado.”
Giuseppe Baldini



Qual seria a magnitude da influência das emoções na mente? Quais seriam os reais limites do poder das sensações? Somos subjugados pelos sentidos; nossa visão, nossa audição, nosso olfato compõem um complexo conjunto orgânico capaz de absorver e interpretar os aspectos organolépticos da matéria física e a partir daí transformar um aspecto mecânico, perfeitamente racionalizável, em um fato emocional, cuja essência máxima se encontra fora dos limites aplicáveis aos métodos de racionalização pragmática. 

Para nos comunicar usamos palavras cuidadosamente ordenadas em frases através das quais expressamos uma realidade concreta e às vezes uma realidade fabricada pelo nosso ego. De todas as formas de comunicação humana, e de interação social, aquela que mais causa impacto é o nosso cheiro, nosso perfume, algo que pode ser definido como uma das inúmeras camadas sobrepostas que constituem o alfabeto ininteligível do individuo como ser. Trata-se de uma dimensão sensitiva de nossos aspectos imateriais, uma projeção involuntária de nossos corpos, aquilo que revela o que tentamos esconder. 

Na conturbada França do século XVIII, Jean Baptiste Grenouille, um jovem abandonado pela mãe logo após seu nascimento, vive atormentado devido a uma estranha habilidade: conseguia sentir os odores de tudo que a natureza havia criado, desde os seres vivos até dos objetos inanimados. Reconhecia o cheiro dos insetos, das aves, dos peixes ainda que estivessem dentro de um lago profundo, era capaz de reconhecer o odor de uma planta a quilômetros de distância, farejava uma tempestade horas antes de a chuva cair, conseguia distinguir o aroma que cada pessoa emanava ao ficar alegre, oprimida ou com medo. Em síntese era capaz de sentir e reter em sua memória o cheiro de cada objeto existente quer seja de uma pessoa em particular até de um simples prego enferrujando em uma construção antiga.

Atormentado pelo fedor insuportável dos mercados de Paris, com suas ruas imundas, fedorentas, cobertas de excrementos, restos de peixes e outras iguarias provenientes do comercio, Grenouille aos poucos é atraído pelo inebriante odor das perfumarias nas margens do rio Sena. É ali que conhece Giuseppe Baldini, um famoso fabricante de perfume que lhe ensina a delicada arte da extração do óleo responsável pelo cheiro das flores. Ao dominar o processo químico de destilação e fabricação de perfumes, Grenouille parte para a busca do que considerava seu propósito maior: produzir o perfume perfeito, aquele capaz de seduzir e dominar qualquer pessoa.

Do simples jovem, dotado de uma singular habilidade olfativa, vemos o surgimento de um assassino que procura extrair a essência dos corpos de suas vitimas movido pela obcessão de produzir o “aroma perfeito”. O substrato filosófico para o crime e sutilmente fornecido pelo autor através da exposição da obsessão de Jean Baptiste por controlar sua própria inexpressividade diante do mundo dos odores, uma vez que o personagem não é capaz de sentir seu próprio cheiro. À medida que a leitura evolui vemos sua incapacidade em contornar aquilo que o tornava diferente, reprovável, não para os demais, mas para si próprio. 

O autor brilhantemente conseguiu elaborar uma narrativa tensa, curta, com diálogos diretos sem, no entanto, sacrificar uma abordagem insidiosa quanto aos aspectos de construção psicológica do personagem principal. Durante a leitura tudo parece evoluir de forma natural se distanciando da típica narrativa literária mal acabada. Trata-se de um romance que reforça a dicotomia corpo-essência dos seres, que explora a sensualidade, o puro e simples erotismo que se molda a partir da superficialidade. A obra de Patrick Süskind nos arrebata desde o inicio, com um texto intrigante, exótico e envolvente, características inerentes aos mais impressionantes perfumes.





Por 
Tiago Rodrigues