quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Quantas intenções um beijo pode guardar?



Conheci o Cezar Tridapalli durante o curso de Jornalismo, ele aceitou o convite do meu grupo para ser um dos entrevistados da aula de rádio. Assim, ganhou o primeiro ponto comigo, afinal não é todo escritor que aceita participar de projetos acadêmicos de aspirantes a jornalistas um tanto atrapalhados, e eu os entendo perfeitamente. Mas eis que a minha vontade de ler seu livro, na época o único publicado era Pequena Biografia de Desejos, já foi despertada nessa época (cerca de um ano e meio atrás), mas a vontade se perdeu na minha lista infinita de outros livros. Só agora em outra ocasião, consegui retomar, mas com outro objeto literário do autor, o premiado O Beijo de Schiller.

Antes de continuar, preciso reconhecer, como é diferente ler uma literatura que tem como cenário a sua cidade. A imaginação flui igual, mas é uma imaginação mais, digamos, palpável, se é que isso é possível, aliada a experiências e lembranças visuais. O enredo do romance tem a Rua Schiller como moradia, como o nome já intui, passeia pelo Passeio Público e tantas outras ruas conhecidas do bairro Alto da XV. E para a minha surpresa, ainda desce a serra catarinense até Itapoá, lugar em que me aconchego todos os finais de semana possíveis. Essa ligação do leitor com o cenário do romance, me fez lembrar de um outro episódio da faculdade. Uma vez um professor perguntou em sala, o que a arte significava, uma aluna respondeu que era algo que só precisava fazer sentido para o artista. O professor a corrigiu, dizendo que a arte serviu para refletir a sociedade, ou fazer a sociedade refletir. Sendo assim, a arte literária de Tridapalli cumpre seu papel.





Mas vamos deixando um pouco a minha história de lado, e seguindo para a história de Emílio Meister, o protagonista do romance, um escritor narcisista, que é bem sucedido na carreira, mas vive uma eterna crise no casamento com Eugênia. Mas sua máscara social, seu medos e vontades são colocados a prova, quando ele e sua esposa são sequestrados por um pivete. Um evento que tinha tudo para ser aterrorizante, toma proporções inimagináveis e se torna libertador para o casal.

Aliás, a leitura é recheada de surpresas. Fiquei encantada como o autor fugiu de um lugar-comum no desfecho do romance. E também, com o uso de um humor sutil e inteligente, por meio de sátiras da vida cotidiana, que me faziam sorrir sozinha no trajeto do ônibus até o trabalho. E foi nesse mesmo trajeto, que um senhor sentou ao meu lado, se contorceu um pouco para ler o título do livro que estava em minhas mãos e exclamou: "É um autor de Curitiba, e não um best-seller! Aliás um ótimo autor", concordei e sorri.

Tenho muito mais para escrever sobre o romance, mas não quero estragar suas surpresas, há descobertas que devemos fazer sozinhos, assim é possível criar interpretações próprias, que muitas vezes nem passaram pela cabeça do Tridapalli. Dessa forma, conquistamos um lugar honrado, o de coautor. Mas se eu pudesse dar um conselho, diria: Leia o romance O Beijo de Schiller, que é o atual vencedor do Prêmio Minas Gerais de Literatura. E anoto mentalmente um conselho para mim: Leia Pequena Biografia de Desejos! E você Cezar, está ganhando o jogo com dois golaços, mas a partida não acabou, ainda dá tempo de ampliar o placar!



"O mundo lá fora não quer saber de nós. Exibicionista, estampa o céu de um azul arrogante, que nos esnoba com seus contrastes, a mata verde pontuada de flores coloridas. Muitos morrem de modo trágico em meio a uma paisagem exuberante. Outros recebem notícias notícias excelentes abafadas por raios e trovões. São mundos sem pontos de contato, indiferentes um ao outro."