domingo, 27 de abril de 2014

Perdão, Leonard Peacock!



Depois de ler o instigante "O Lado Bom da Vida", esperei o mesmo nível de narrativa de "Perdão, Leonard Peacock", mas me surpreendi. Realmente Matthew Quick fez bem em largar a carreira de professor, rever seus valores de vida e se dedicar à escrita.

"Um estranho, belo e novo mundo o aguarda, Leonard". Peacock toma uma decisão, cometer um homicídio-suicídio utilizando uma P-38, a arma nazista que herdou do seu avô, e assim acabar com todos os seus problemas. Mas antes de cometer esse ato, precisava se despedir dos poucos amigos que manteve durante seus recém completados 18 anos. 

- Mato você mais tarde - digo para o sujeito no espelho, e ele apenas sorri de volta, como se mal pudesse esperar.
'Promete?', ouço alguém dizer, o que me deixa apavorado, porque meus lábios não se moveram.
Quer dizer, não fui eu quem falou 'Promete?'.
É como se houvesse uma voz presa dentro do espelho."

Peacock separou quatro presentes, enquanto ele os entrega os segredos são revelados. O primeiro deles foi para Walt, o seu vizinho que o ensinou a gostar dos filmes de Humphrey Bogart; depois para Baback, um dos estudantes de sua escola que é um surpreendente violinista; Lauren uma cristã que tentou converter Leonard, e ele só queria a convencer de novas ideologias e ganhar um beijo; e Herr Silverman, o professor que ensina sobre Holocausto.

O que mais me surpreende em Leonard é sua forma de ver o mundo, mesmo em meio a toda a tristeza, abandono - afinal sua mãe coloca o mundo da moda em primeiro lugar, e de toda a raiva que sente do seu ex-melhor amigo, há frases como essa: "Eu gosto de imaginar que sou um prisioneiro mantido em uma cela úmida e escura, a quem só são permitidos quinze minutos por dia no pátio a fim de que eu me lembre de realmente gostar de olhar para cima".

Sabe aquelas famosas notas de rodapé? Então, no livro elas são escritas pelo próprio personagem, e não pelo autor como acontece em tantos outros. Outro detalhe que enriquece a história são as constatações sobre o Holocausto realizadas por Herr Silverman e Leonard, as comparações entre os tempos são geniais e mostram que, guardadas as suas proporções, muitas situações ainda não mudaram.

"Eu sei que isso vai parecer errado, mas sempre que visto meu terno de enterro, vou para a estação de trem e finjo que tenho um emprego na cidade, isso sempre me faz pensar nos trens nazistas que levavam os judeus da Segunda Guerra Mundial para os campos de concentração. Herr Silverman nos ensinou sobre isso. Eu sei que é uma comparação horrível, talvez até ofensiva, mas aguardando ali na plataforma, entre os homens de terno, sinto que estou esperando para ir para algum lugar horrível, onde tudo o que é bom acaba e, em seguida, a miséria perdura para todo o sempre - o que me faz lembrar das terríveis histórias que aprendemos nas aulas sobre o Holocausto, seja isso ofensivo ou não.
Quer dizer, nós ganhamos a Segunda Guerra Mundial, certo?
E, no entanto, todos esses adultos - filhos, filhas e netos de nossos heróis da Segunda Guerra - continuam a entrar em trens da morte metafóricos, mesmo tendo derrotado os nazifascistas há muito tempo. Portanto, cada americano é livre para fazer o que quiser aqui neste grande país supostamente livre. Por que não usam sua liberdade para buscar a felicidade?".