quarta-feira, 2 de abril de 2014

Era uma vez - Eu estaria mentindo se dissesse que isso não é uma declaração de amor

Cena do filme "O amor acontece"
Da poesia que vivemos, somente o final foi o que restou.
Como a estrada que entre secura, chuvas e frio, também chegamos ao fim. Entrecortando casinhas e pessoas, como se ali não existisse vida. Ignorando completamente que o lar deveria ser mais digno que o mundo; fomos passantes. Transeuntes desatentos. Sobreviventes e peregrinos em todos os caminhos possíveis. Trancos e barrancos e tempestades; reviramos, viramos e, hoje, vivemos a culpa porque chegamos.
Chegamos ao fim da estrada.
Chegamos.
Ao fim.
Ainda hoje, vejo – ou somente recordo-me? – o brilho de seu sorriso. Mais que dentes brilhantes, sinto-me viver na presença forte e contagiante de seu ato glorioso; sorrir, apesar de tudo. Sorrir. Sempre. Estou preso nessa eterna busca de sentido. Preso em um universo paralelo onde vejo sorrisos por todos os lados.
Seu sorriso por todos os lados.
Seu sorriso.
Só seu.
Arremata-me o peito. Batendo em mil e uma palpitações. Seu sorriso, seu. “Deixe-me de atrapalhar, por favor. Mas não vá, não deixe de sorrir. Nunca deixe de sorrir. Para mim.” Segundo, seguro suas mãos enquanto elas escorrem por entre meus dedos, tornando-a estátua de areia soprada pelo vento.
A estrada, percebo, novamente acabou.
Assim como você deixou de sorrir.
O poema e poeta tiveram fim.
E ao som da valsa berrada no gramofone, bailo sozinho. Porém, não me esqueço de segurá-la entre os braços fortes. O chão da sala conserva uma fina camada de poeira. Você não baila mais comigo. Ele se recusa a permanecer limpo se não for por você. Os móveis também não saem mais do lugar. Mas, no chão de minha terceira dimensão, você ainda baila e a poeira não existe.
Sorri e baila.
Delicadamente.
Como se levitasse.
Como se de seus pés pudesse brotar asas.
Mas podiam, mal sabia eu. Afinal, foi com as mesmas asas nos pés que a fiz levantar voo e partir. Não foi?
Seu cheiro ainda escorre em meus lençóis. Deixou a marca. Mais profunda que a lembrança dentro de mim. O cheiro físico que espalha-se pelo apartamento toda vez que vem-me à mente. A marca que somente um resfriado me evitará sentir. A marca das chamas. Do amor banhado de suor. Do suor transpirando de amor.
Dos sexos tocando-se.
Dos corpos nus
na cama.
E você gemia. Ainda posso ouvi-la. Timbre agudo. Irritante. Infantil. Posso ouvi-la. “Deixe-me. Deixe-me de irritar. DEIXE-ME DE IRRITAR.” Você não calou a porra da boca. Lembra-se? Pedi uma eternidade que deixasse de falar. Não calou. Até ser calada. Por amor.
~~~
Na garanta
Miolos ao vento.
E, pela primeira vez, você voou.
~~~
Hoje fedes a rosas. Belas rosas. Brancas. Como em cemitério. Como em cheiro de cemitério e mortos. Como sepulcro que me deixaste no peito. Assinaste a mim o atestado.
Causa da morte:
viveu e matou por amor.
Como poeta que um dia foi.
    





Era uma vez
Por Mellissa R. Pitta