quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Na História - O Preço da Vitória



A maior parte da população de Dresden preferiu ignorar a alarme de ataque aéreo que soou exatamente as 21h51 de uma terça-feira, 13 de fevereiro de 1945. Foram tantos os alarmes falsos que os mais de 640 mil cidadãos estavam habituados a só buscar abrigo após o segundo alarme. A noite estava clara e uma brisa fria soprava por toda a cidade. A essa altura os motores dos 244 bombardeiros britânicos já podiam ser ouvidos em alguns bairros da periferia. Poucos minutos após as 22h os primeiros aviões surgiram e, em menos de cinco minutos, descarregaram 881 toneladas de bombas no centro histórico da cidade. 

Em poucas horas a região central se converteu num mar de chamas e o calor chegou a ser sentido pela tripulação dos bombardeiros a 3 mil metros de altura. Aqueles que conseguiram escapar do inferno que tomou conta do centro histórico não podiam imaginar que o pior ainda estava por vir. Entre a meia noite e o meio dia de 14 de fevereiro a cidade sofreria mais dois ataques devastadores, cujos incêndios foram vistos a mais de oitenta quilômetros da cidade e provocaram a morte de quase 40 mil pessoas.

Sessenta e nove anos após o terrível bombardeio aliado a cidade de Dresden os questionamentos morais acerca do fato ainda rendem debates acalorados. Em “Dresden – terça feira 13 de fevereiro de 1945” o autor Frederick Taylor esmiúça um dos mais conturbados eventos da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e se coloca diante de uma proposta, no mínimo, ousada: a de que o bombardeio foi um ataque militar legitimo contra alvos militares e não contra uma cidade indefesa. 

O caráter fortemente tendencioso da narrativa é um dos pontos fracos da obra, mas os inúmeros relatos impressionantes dos sobreviventes que enfrentaram temperaturas de até quinhentos graus e ventos com mais de oitenta quilômetros por hora, fazem valer a leitura das quase 600 páginas de um texto ágil e absolutamente chocante. Taylor nos expõe um quadro vivo e sem atenuantes de uma das maiores arenas de sofrimento humano do século XX. Relatos de pessoas que morreram literalmente cozidas enquanto buscavam alivio para o calor dos incêndios dentro das fontes e reservatórios de água da cidade, ou da desesperada luta de sobrevivência – ironicamente um exemplo Darwinista tão amplamente defendido pelos nazistas - em meio a ruas cobertas por asfalto derretido e por corpos de vítimas asfixiados pela fumaça dos incêndios. 

Ao amanhecer do dia 14 de fevereiro, “quarta-feira de cinzas”, Dresden já não era mais uma cidade. Reduzida a milhares de toneladas de escombros enegrecidos e deformados pelo calor a chamada “Florença do Elba” estava praticamente irreconhecível. Aqueles que conseguiram sobreviver ao catástrofe da noite anterior tiveram de enfrentar mais uma trágica ironia do destino, varias “grelhas” haviam sido montadas na região da praça do mercado central de Dresden para queimar os corpos retirados dos porões ainda quentes, mesmo após uma semana do bombardeiro. 

Ao final da leitura é impossível não se questionar sobre a real necessidade de um ataque com tamanha magnitude e violência. Faltava pouco mais de oitenta dias para o fim da segunda guerra mundial. Mas assim como Hiroshima, Dresden é o exemplo trágico de que é “melhor um fim com terror do que um terror sem fim”.






Título: "Dresden - Terça-feira, 13 de fevereiro de 1945"

Autor: Taylor Frederick

Tradutor: Vitor Palozzi

Páginas: 588

Editora: Record








Por 
Tiago Rodrigues