segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Era uma vez - Contato (sobre)humanos



vem cá, meu amor, que eu vou lhe contar uma coisa que descobri. mas tem um porém: vê se não espalha, okay?! fica cá entre nós! sim, preciso sussurrar, alguém pode nos ouvir. pode ser perigoso se o mundo souber. é segredo. não, não me olhe dessa forma. sei que está duvidando, mas precisa acreditar em mim. já lhe contei alguma balela? isso pode revolucionar o mundo. não balance a cabeça, sei que está me desaprovando. de repente parou de acreditar em mim? okay, concordo, meus movimentos estão exagerados, mas é a excitação. enfim, vai me deixar contar? sem essa cara, por favor, só me escute. prometo controlar minhas mãos, mas você sabe, né? tenho essa essência italiana quando estou exaltada. e isso é tão grande, tão incrível. você vai entender logo logo. assim espero.

ouvi falar que um dia a moda jovem foi a telepatia. não, sem risadas, espere-me terminar. não a telepatia segundo os dicionários. existiu uma telepatia diferente. uma telepatia em que você desliga-se do mundo e passa a observá-lo e vivenciá-lo de uma outra maneira. olhe em meus olhos. percebe-os marejados a clamarem em sua direção? shhhhhhh, é meu momento, deixe-me falar. olhe para eles. bem no fundo e por algumas horas. já havia reparado que um deles é mais claro? pare de revirar os seus, é importante para mim, meu amor. um é castanho e o outro castanho esverdeado. não faz diferença quando você conversa comigo olhando na tela do celular, mesmo eu estando ao seu lado, certo? eles parecem iguais, sempre. estou errada? pode responder, vai. tá, eu sei que pedi para não me atrapalhar, mas isso não foi uma pergunta retórica. 

enfim, não reparou na cor verdadeira de meus olhos, que só depois de uma hora olhando seguidamente conseguiria ver, imagine os sinais que eles lhe passam. essa telepatia da qual lhe falo, pede que você traduza minhas expressões, meus movimentos mais sutis. calma, já vou explicar. sabe quando me falou que sua mãe estava chateada comigo? logo em seguida recebeu uma mensagem no whatsapp, não percebeu que minha pálpebra piscava sozinha. sabe o que isso significava, afinal? não, não responda. fiquei nervosa, mas você não viu. gosto muito de sua mãe, mesmo ela não sendo um modelo exemplar de sogra. e aquela hora que fiquei quieta? ah, faz uma meia hora, não lembro bem. reparou nos meus olhos pouco cerrados? eu analisava cada curvinha de seu rosto. cada detalhe. cada defeito. cada beleza. fotografava cada partezinha para guardar na memória, afinal, não sei até quando estará ao meu lado. sei que é exagero, não precisa me lembrar dessa minha alma inquieta. mas nada é para sempre, a não ser as lembranças. se você não for para sempre, pelo menos seu rosto o será em mim. 

sei que está impaciente, mas já estou terminando. existem outros movimentos tão sutis que um piscar de olhos pode ser o suficiente para que você os perca. logo que encontramo-nos, sorri para você. era uma sorriso meio de lado, meio torto. não tinha dentes, mas ele estava lá. se você tivesse o dom da telepatia, coisa dos mais sábios e antigos, saberia o que se passava em minha mente naquela hora. eu estava bobamente agradada pela sua presença comigo. você chegou a notar isso? você estava fazendo check-in. não reparou. quando tamborilei os dedos na mesa, implorava por atenção. contava-te alguma história mirabolante de meu dia a dia, porém, por mais mirabolante, para mim foi importante. será que aquela hora você estava realmente me ouvindo? não é exagero, respeite minha essência, por favor. você estava comigo ou somente ao meu lado? 

tá, sei que deve estar achando um saco tudo isso. isso me entristece. mas já termino. hein, você já reparou que meus sorrisos são sempre meio fechados, por mais sincero que seja? se prestar atenção, vai perceber. meus dentes são minimamente tortos, mas ainda tenho vergonha deles. isso pode ser ridículo para você, mas para mim não. não ria, por favor... sim, estou suspirando de cansaço. pelo menos isso você reparou. talvez eu deva parar com minhas constatações. vou-me embora e acho que nem vai reparar. não, não é besteira. perceberá que fui embora quando visualizar meu check-in em casa. curtirá, satisfeito porque cheguei em casa bem. e vamos cada um dormir bem. mas os antigos, aaaah, os antigos é que dormiam bem quando ainda existia telepatia... e não existia celulares.



Nota da autora: Esse conto surgiu de uma necessidade de regurgitar conflitos e pensamentos que há muito vem me atormentado, por isso seu experimentalismo. Seu ritmo sem parágrafos e com letras minúsculas confere a pressa ao falar algo que se lhe atormenta, sem pausas, sem o pensar antes, visando justamente conferir ao conto esse sentido de sentimento reprimido.




          
          Por Mellissa R. Pitta