sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Era uma vez - Copo de Leite

Cena da adaptação cinematográfica "Orgulho e Preconceito"


Cá estamos nós. Novamente aqui. Eu e você. Um freio de mão. Você e eu, aqui. Como fora há algum tempo passado. Como eu gostaria que fosse em algum futuro remoto. Como não foi, não é e não será.

“Como não?” pergunto-lhe.

“Como não.” responde-me.

E por mais que lhe escreva isso no instante em que o vivemos, o registro se dá um pouco tardio. Sem desculpas que não existem. Mera formalidade. Talvez obrigação. Talvez preenchimento. Preenchimento do que não se tem e se cria. E disso vivo. Você e eu, aqui, entre um freio de mão, confidenciamos isso.

Um segundo de quietude. O suficientemente rápido para aproximar-me em tchau, ficando nós, frente a frente, nariz com nariz; sua respiração que cruza com a minha. Posso ver, em suas bochechas rosadas, poros. Fechados. Abertos. Gotículas de suor que se acumulam em sua pele. Marcas de expressão entre as sobrancelhas. “Digno sinal de seus momentos de brabeza.”, sorrio internamente.

Procuro ali, próximo a ti, encontrar o impulso que lhe instiga a face, os músculos, os membros superiores e inferiores. Consigo senti-los, todos (tolos) vibrar. Todos eles. Tolos eu. Seu corpo então é uma valsa completa. Imóvel.

“E confesso, apaixonante.”, amarro as palavras entre os dentes, mordendo a língua no exato momento em que brotam-me.

Um segundo. “Fomos tão rápidos.” Não vi nada disso, mas quando não se tem, se cria. Isso é a arte que vivo. E você, aqui ao meu lado, separada pelo freio de mão, também vive. Um bailado de ilusões e realidades, misturados o suficiente para suprir diariamente as inquietezas da alma. “Necessário. Somente o necessário.”, alguém cantaria essa trilha sonora do nosso filme. Que nunca será filme. Muito menos nosso.

“Nunca?”, pergunto-lhe.

“Nunca.”, reponde-me.

Olho e escuto atrás de você. Os ponteiros do relógio analógico batem ecoando em minha cabeça. Um segundo. Vai. Volta. Um segundo. Sim. Somente um segundo se passou. “É hora de dar tchau. É hora de dar tchau.”

Ainda estou próximo, percebe? Ainda sinto sua respiração. Ainda vejo poros, rugas, suor. E o tempo. Ainda sinto a animação de tanta conversa. Ainda escuto o eco das risadas.

Assumo o risco e rabisco um beijo-lhe nos lábios. Algo que deveria ser molhado e entregue.

Rabisco-lhe, repito, um beijo nos lábios. Tentativa: 100%. Recebo em troca 10%. Seguindo uma risadinha torta e um balançar de cabeça.

“OI?”, grito internamente dado o momento em que sua sutileza quebrou-me as pernas, porém, de meus lábios só sai um simples pedido de desculpas.

Parto então, fugitivo. Humilhado. Decepcionado. Procuro sempre respostas. Decisões. Elas nunca vêm. Elas nunca existem.

Deixo-me desabar ao chão sem chegar a cair. No chão, mesmo em pé e a passos largos, já não vi mais seu rosto; nem os poros ou gotículas, as marcas de expressão e a valsa. Consigo apagar-lhe na mente por alguns instantes, breves o suficiente para dar-me um respiro prolongado, longos o bastante para bater-me o peito em saudade.

Já encaro a porta de entrada. O que bate o coração?

TUN TUN TUN TUN TUN TUN TUN TUN TUN TUN TUN TUN TUN
“Amargura.”
TUN TUN TUN TUN TUN TUN TUN TUN TUN TUN TUN TUN TUN
“Dor.”
TUN TUN TUN TUN TUN TUN TUN TUN TUN TUN TUN TUN TUN

E abro os olhos de repente. Estive na cama todo esse tempo. Você não existe e nem existiu. Sonhei. Sonhei com um amor que achei que tivesse. Sonhei a ponto de sentir meu coração vibrar mesmo acordado. Mas não. Você nunca existiu. Nunca me fez sorrir. Nunca me fez amar.

       E o coração acalma-se, aos poucos, enquanto volto a fechar os olhos. Tudo depois de um copo de leite.






Era uma vez
por Mellissa R. Pitta