quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Na História - Banalidade do mal: As entrevistas de Nuremberg



Leon Goldensohn, de 34 anos, formado em psiquiatria pela Universidade Estadual de Ohio serviu como oficial do exercito americano durante a Segunda Guerra Mundial. Destacado para o presídio de Nuremberg, com o objetivo de cuidar da saúde física e mental dos vinte e dois membros do alto escalão nazista, presos ao final do conflito e acusados de cometerem crimes de guerra, sentiu-se atraído pelo “tesouro psicológico” e pela perspectiva de desvendar os supostos aspectos ocultos do mal. Nessa busca por evidências patológicas que explicassem o nível de depravação do nazismo, Goldensohn acabou redigindo centenas de paginas com suas anotações pessoais cujo conteúdo revela, entre outras coisas, uma singular particularidade do mal: a ausência de empatia.

Nas mais de 500 paginas do texto vemos homens, acusados de cometerem as maiores atrocidades de seu tempo, divagarem sobre suas famílias, seus pais, sua infância, problemas de saúde, casamentos conturbados, a perda dos filhos durante o conflito, seu nacionalismo exacerbado e seu senso de compromisso com a pátria. Goldensohn não se eximiu do impulso de anotar suas impressões particulares acerca dos entrevistados. Karl Doenitz, comandante da marinha alemã, é descrito como um sujeito “polido, de uma afabilidade meio suspeita, fala um inglês quase perfeito, mas é preciso deixá-lo bem à vontade, senão não abre a boca”; Hermann Goering, comandante chefe da força aérea nazista, se traduz na imagem de um homem com “humor instável e infantil nas atitudes”; Joachin Von Ribbentrop, Ministro das Relações Exteriores de Hitler, emerge como um homem de aparência “levemente depressiva, embora sorria com frequência ou ria agradavelmente”.

Goldensohn, que nunca anotava nada na frente de seus pacientes, ou cobaias como parece mais apropriado, conseguiu construir uma atmosfera de informalidade cujo propósito era libertar a mente das amarras da consciência. Seu método produziu relatos diversos, desde o fanatismo demonstrado por Julius Streicher, editor do “Der Sturmer” - um dos mais famosos jornais antissemitas da Alemanha, até a chocante e impressionante entrevista com Rudolf Hoess, Tenente general da SS e comandante do campo de extermínio de Auschwitz entre 1940 e 1943. Com uma frieza assustadora Hoess descreve todo o processo de extermínio no maior e mais famoso campo de concentração nazista, desde a chegada das vitimas ao campo até a cremação dos corpos. Os detalhes mórbidos como a medida exata das câmaras de gás, o tempo médio gasto nos “gaseamentos”, o número de corpos que eram incinerados diariamente até o número exato de funcionários utilizados no processo são descritos com a clássica metodicidade prussiana. 

A introdução de Robert Gellately nos fornece um quadro geral sobre as quatro acusações apresentadas pelo tribunal aos réus, bem como detalhes da rotina diária dos prisioneiros e das conturbadas reuniões pré-julgamento entre os aliados ocidentais e os soviéticos acerca dos procedimentos jurídicos que deveriam ser adotados. Apegados ao compromisso de impedir que o tribunal fosse visto como uma espécie de “vingança dos vencedores” as autoridades adotaram uma cautela retórica que fica evidente quando se percebe que nenhum dos réus foi acusado formamente de perseguir ou exterminar uma minoria especifica, como os judeus. As palavras “Holocausto” e “Genocídio” nunca foram utilizaas durante as audiências.

A leitura é uma experiência surpreendente, para dizer o mínimo, e bastante reveladora. Em muitos momentos nos sentimos transportados para dentro das celas acompanhando de perto as reinteradas e constantes alegações de inocência de homens como Ernest Kaltenbrunner cuja audácia associada a ausência de qualquer resquício de consciência foi capaz de dizer em sua frágil defesa: “Sou visto como outro Himmler” (sorrisos.) ”Mas não sou. Os jornais fazem de mim um criminoso. Nunca matei ninguém.”




Por
Tiago Rodrigues