sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Era uma vez ... A dona da loja de porcelanas e o touro


É tarde, chego à conclusão ao olhar o visor eletrônico fosforescente do rádio relógio ao lado da televisão. Sento-me às quatro da madrugada em minha máquina, sempre há algo a ser dito; os silêncios da madrugada nunca devem ser ignorados. Escrevo por conta de uma insônia que não deixou-me pregar os olhos. Vozes que eclodem, em distúrbio, na minha cabeça cansada. Sim. Não. SIM! NÃO! Discutem. Berram. Ininteligíveis, a maioria das vezes. Vozes sobre vozes. Às vezes murmúreos, às vezes gritos. “CALEM-SE!” brado, imploro, choramingo internamente.
            Eu só queria dormir, confesso, porém, essa agitação controla meus movimentos. “Os silêncios da madrugada nunca devem ser ignorados.” Maldita alma de escritor.
            Encaro a página em branco, as teclas pretas já surradas daquela máquina de escrever tantos contos, crônicas, reportagens e cartas. Tento respirar fundo e discernir o que as vozes ditam. Está difícil. Não entram em um consenso. “Uma de cada vez, por favor.”

No topo da página, o título surge entre o tec-tec da valsa de dedos e teclas.

A dona da loja de porcelanas e o touro”

            Suspiro longamente. Não. Eu já havia decidido nunca escrever essa fábula. Decidido há meses, por sinal. A dona da loja de porcelanas que me perdoe. O touro que me perdoe. Não posso, ou melhor, não quero. Diante de minha recusa, as vozes voltaram com força total. SIM. SIM. SIM. SIM.
            “PORRA!”
            Levanto-me sem nem olhar duas vezes para a máquina, a cadeira atrás de mim vira com as quatro pernas para cima diante do brusco movimento. Um objeto indefeso diante da minha fúria. “Quem era o touro agora?”
            Sigo para a cozinha onde sirvo-me uma dose de uísque. Sem gelo, dose arregada. Mais da metade do largo copo. Beberico. Acendo um cigarro. Apoio-me na pia. As vozes ficam felizes com o consumo desenfreado daquelas drogas legais. Aos poucos se acalmam, mas não somem. Depois do terceiro ou quarto trago, deixam-me sentar ao chão, escorregando pela parede. Abraço os joelhos. Sinto neles a pulsação descontrolada dentro da caixa torácica.
            Sinto que preciso escrever. É um sentimento que invade agora todo meu corpo, sobe entre minhas veias corroendo-me como veneno. Contorço-me ainda abraçado aos joelhos. “NÃO”, grito. “Não”, dessa vez imploro. É como um vício. Minhas mãos tremem. A abstinência tornou-se física. Preciso escrever. Quem observa de fora, pergunta-se há quanto tempo deixei de usar coca. “Talvez um dia, dois.”
            Escrever é meu vício, mas também minha maior tortura. Ser um escritor de academia deve ser mais fácil. Estudar as maiores obras literárias. As figuras de linguagem. As formas de escritas. Juntar palavras formando certa lógica. “Fácil!” Mas, claro que não. Sempre fui levado pelo emocional. “G-A-Y!”
            De volta à máquina de escrever. Ao lado, o copo de uísque reabastecido, dessa mais vez com maior quantidade do néctar. No cinzeiro, outro cigarro já queimava enquanto eu encarava novamente as teclas surradas.
            Meus dedos coçam. Minha cabeça coça. Meu corpo todo coça. Só deixará de coçar depois que terminar de escrever. Bem sei disso.
            Um longo trago. Deixo com que o bailado dos dedos inicie-se. Lentamente. Amedrontado.


            Ela era moça bonita. O rosto fino e quadrado. O nariz mais perfeito que poderia existir na face da terra. Corpo miúdo, acinturado. Os dedos finos, o olhar claro e manso. Os cabelos compridos, caídos até a cintura, eram de um alaranjado brilhoso. Até no jeito de andar via-se sua delicadeza.
            Na pequena vila onde morava, era conhecida por Bailarina, mesmo sem nunca ter feito aulas de balé. Era graciosa. Dona de um jeitinho tímido e fala baixa.  
            Bailarina, tinha um sonho. Apesar de toda sua pequenez, seu sonho era grande, assim como seu coração. Aos 21 anos abriu sua loja, no Centro da vila, perto do coreto. Loja de porcelanas. Delicadas. Frágeis. Como ela. Serviço de chá, aparelhos de sopa, canecas, pratos, refratários. As louças vendiam-se mais pela doçura de Bailarina, do que pela utilidade dos objetos.

            Na vila vizinha, o desespero. A criação de touros do Seu Zé havia fugido. “Incidentes acontecem”, alegou ele quando questionado pelo Seu Prefeito Pequeno. A filha, distraída que si só, deixara a porteira aberta sem querer. Sem querer? Em um dia, todos já haviam sido capturados e trazidos para o criadouro/matadouro novamente. Todos. Menos um.
            “Era uma alma libertária!”, diziam os engraçadinhos. Outros espreitavam as encruzilhadas com olhares espantados e atentos, “Imaginem o que um touro não pode fazer.”.
            Mal sabia Seu Zé, Seu Prefeito Pequeno, os engraçadinhos e os espantados, que o Touro também tinha medo. Que o Touro também desejava ser livre.
            Seu Touro depois de tanto vagar, às vezes pastar, às vezes descansar, apareceu no Centro da vila vizinha. O desespero que então cercava a vila de Seu Prefeito Pequeno agora mostrava-se estampado nos moradores dali. Chamaram, gritaram, correram em busca de Seu Guardinha. Ele tinha uma arma (que nunca fora usada), mas dessa vez seria. Seu Touro assustado com a multidão assustada, bradava, urrava, pulava entre as duas patas dianteiras e, logo em seguida, as traseiras. Estava agitado. Confuso. Por que as pessoas faziam isso? Seres estranhos. Andavam sobre duas patas.
            Quando Seu Guardinha chegou, um tiro foi ouvido para o alto. A população central se escondia entre barraquinhas, becos e arbustos, mas mantinha um olho no meio da praça. Desejavam ver o sangue da grande besta ser derramado. Sádicos. “O Touro merecia”.
            Do tiro, Seu Touro corre, ainda gritando, ainda gemendo. “Que barulho fora aquele?”, era mais desumano que os gritos humanos, pensava.
            Uma grande porta de vidro se abria na direção que os olhos negros de Seu Touro miravam. Sua musculatura da pata esquerda traseira em um instante encolheu. Uma dor excruciante subiu-lhe o corpo todo. Gemeu alto. Mais alto do que o imaginável. Estava ferido. Disparou à porta de vidro. Entrou na loja debatendo-se, gritando. Haviam-lhe ferido. Pedia socorro.
            De repente porcelanas voavam virando pó sobre o chão. Baixelas, copos, pratos. Prateleiras. Seu Touro se joga ao chão, ao lado do estrago, quando vê Bailarina saindo de trás do balcão dos fundos. Entre o estrago, porcelanas, sangue e Seu Touro assustado, isso é o que vê os olhos delicados e arregalados da moça. Marejados. O sonho de Bailarina despedaçado.
            Seu Guardinha corre em direção à loja. Mataria aquela besta. Antes que conseguisse chegar, o grande coração de Bailarina lê o pedido aflito de Seu Touro. Um nobre pedido de desculpas. Tranca a porta de vidro. Diz: “Aqui ninguém entra!”
            A população revoltosa do lado de fora da porta de vidro não entende. O que a pequena Bailarina estava fazendo?
            “Suicídio.”
            “Louca.”
            “Pobre Bailarina. Perdera a razão.”
            A moça bonita vai aos fundos e volta com um balde d'água. Panos rasgados. Chega perto de Seu Touro. Devagar. Com medo. Com os olhos, pede licença. Seu Touro geme languidamente. Outra pontada na pata. Bailarina chega ao ferimento. O instinto do animal a joga longe com uma patada. Bate a cabeça na parede. Assustada, ela o encara. Tenta novamente. Na segunda tentativa de aproximação, outro urro de dor, Seu Touro perde as forças. A moça consegue molhar o ferimento e amarrar dois pedaços de pano. Está estancado.
            Seu Touro volta a se contorcer, ainda jogado ao chão. A alma da pobre Bailarina se compadece mais, tenta lhe tocar as costas. Uma carícia meio desajeitada. Ela tinha medo. Sob o afago, o animal mostra-se mais receptivo. Ela sente o corpo dele amolecer sob suas mãos.
            “Parece até humano.” pensa ao encarar o pânico do olhar animal.
            A população, já dispersa, volta para suas casas com a pulga atrás da orelha. Seu Guardinha também desiste. Voltaria amanhã tentar falar com a menina.
            Em uma semana e uma pata traseira boa, Bailarina e Seu Touro tornaram-se grandes amigos. Entendiam-se por olhares. “Ele é humano.” afirmava a moça. Dessa grande amizade, cresceram os batimentos cardíacos. As borboletas no estômago.
            “Eu o amo?!!” interrogava, afirmava, vivia a moça.
            Seu Touro permanecia dentro da loja, depois das portas do fundo, no pequeno jardim. Não entrava. Bailarina passava horas acariciando-o. Fazendo-o ouvi-la. Confidenciando-lhe dos piores, diversos segredos. Apesar da candura, ela também era humana. 

EXTRA, EXTRA
BAILARINA APAIXONA-SE PELO TOURO FUJÃO DA VILA VIZINHA

            Criou-se um rebuliço. A moça não se importava. O olhar de Seu Touro dizia muito, muito mais que gostaria. Eram momentos únicos. Diferentes. Ela falava. Ele respondia com os olhos. Com trabalho árduo, em uma semana a loja estava montada novamente. Prateleiras erguidas, aparelhos e porcelanas exibidas. O movimento caíra, mas não o suficiente para ser o fim.
            Passados trinta dias, um ataque de fúria. O instinto animal. Seu Touro entrou na loja e destruiu tudo. Novamente. Estava chateado com a Bailarina. Vingou-se sem querer. Sem querer?
            A moça chorou três dias e duas noites. Conversou com Seu Touro. Pediu que não entrasse mais dentro de seu sonho. Leu o pedido de desculpas no olhar animal. O deixou ficar.
            Mas, como evitar aquela criação? Era inevitável. Uma vez por mês os ataques voltavam. As porcelanas eram destruídas. O olhar de Bailarina era triste. O de Seu Touro era desculpa. Cabisbaixa, a moça amava-o demais para mandá-lo embora. Via muitas vezes seu sonho destruído, mas não queria perdê-lo. Seu Touro a amava demais para querer ir embora. Prometia a si mesmo nunca mais entrar na loja.
            Viviam momentos de conversas ao pôr do sol. De noites enluaradas e quentes. De companhias instigantes. Troca de olhares. Era amor! Por mais estranho que poderia parecer. AMOR!
            Porém, decorrido um mês, era fatal. Seu Touro não conseguia se controlar.
            O tempo passava. Sempre a mesma situação. O olhar de desculpas. O amor entre humano e animal. O sonho de Bailarina sendo destruído e reconstruído a cada mês. O ódio interno de Seu Touro por não conseguir se controlar.
            Até que um dia, depois de um mês de análise, antes de anoitecer, enquanto a moça reabastecia o estoque das porcelanas, Seu Touro arrependido pela semana anterior ter derrubado novamente as prateleiras, decide sair pela porta dos fundos.
            Com uma última olhada para aquele jardim, com uma última olhada para aquela loja, sente escorrer algo que seria uma lágrima. A pontada no coração do animal lhe diz que sim. Vai embora antes que a dona da loja de porcelanas volte. Não conseguiria partir se a visse ali, com seus olhos doces, suas mãos delicadas. Foge noite a dentro com o peito rasgado. Amara aquela humana demais para continuar fazendo-a sofrer toda vez que seus instintos o pegavam e destruíam seu sonho.
            Esperava que a Bailarina encontrasse um gatinho que pudesse amá-la e que não destruiria suas delicadas porcelanas. Não perguntou a ela se era isso que queria. Escolheu pelos dois. Fugiu. Partiu.


            Retirei o papel da máquina de escrever. A Bailarina e Seu Touro? Vozes ridículas. A ideia, além de ultrapassada, era mais que louca. Doentia.
            A fábula estava sem fim. Eu sabia que faltava algo. Percebo o copo de uísque já vazio. A carteira de cigarros se esgotando. Seria esse o fim. A falta dele.
            Quem precisava saber do fim da história da Bailarina, afinal? O importante era o Seu Touro. Personagem forte, marcante, decidido. Egoísta e, ao mesmo tempo, altruísta. Tinha um bom coração também.
            Levantei-me e, na cozinha, servi-me outra dose de uísque. Dessa vez curta. Sorvi em um gole só. Voltei à cama com as vozes em branda calmaria em minha cabeça.
            “Satisfeitas?”
            Deito e acendo um último cigarro. Trago em longas puxadas. A nicotina desce como uma última acalmada. Com a cabeça no travesseiro, deixo os olhos fecharem aos poucos. Insisto. A história não terá fim. Adormeço então, como um bebê amparado. Sono pesado. Sem arranhões. Escuro e calmo.


            E ao perceber o que realmente acontecera, a dona da loja de porcelanas chora. Chora sem lágrimas, mas do fundo do peito. Aninhada no canto da loja, odeia-a por alguns instantes. Decide, impulsiva. “Vou partir.” Lacra caixas com baixelas, serviços de chá e aparelhos de sopas. Diversas delas. Na porta de vidro a placa: vende-se. Desistira da delicadeza da porcelana, grande culpada por aquela dor. Não conseguiria vê-las sem lembrar-se de Seu Touro.
            Vê-se pegar a estrada. Cair no mundo. Partir, assim como ele. Quem sabe começaria uma criação de touros em outra vila. Se Seu Touro tivesse perguntado, entenderia que ao conhecê-lo, ela ganhara outro sonho, não mais o que sempre tivera com as porcelanas.
            Na mente, duas únicas coisas eram claras. Assim como o lacre na caixa das porcelanas não seria mais aberto, nunca mais olharia nos olhos de Seus Touros pelas vilas. Era mais seguro, havia decidido.
           

 



Era uma vez
por Mellissa R. Pitta