segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Era uma vez... Dois segundos

Cena do filme "Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios"


Minha rotina era sempre a mesma, de casa para o trabalho, do trabalho para casa. Sentava-me de vez em quando na velha cafeteria, tomava um expresso na velocidade da luz, mas lento o suficiente para não queimar a língua, enquanto escrevia frases esparsas em meu bloco de anotações. Elas nunca tiveram utilidade, mas ainda as escrevo. Depois ia para casa. Extremamente entediante e nada emocionante, certo? Até o dia de hoje, com certeza.

Enquanto saía de mais um cansativo dia de trabalho, mirava o chão, seguia meu caminho entre ruas que me levariam ao ponto de ônibus. Como um cego que faz diariamente o mesmo caminho, eu não precisava levantar os olhos para saber aonde ia, nem quais os obstáculos encontraria, pois desviava-me com demasiada rapidez. Seguia passo a passo pelos quadradinhos brancos e pretos, ininterruptamente pela Rua XV, sabendo que em breve chegaria ao meu destino.

De repente fui surpreendido, como nunca o fora até então.

Mesmo não acreditando nas peripécias do destino e, descumprindo uma de minhas regras pré-estabelecidas, ousei, por míseros dois segundos, levantar o rosto e observar a multidão.

Regra:

Nunca faça isso.

Como se por sorte ou aquele chamado de destino, nossos olhares se cruzaram.

Durante estes míseros dois segundos, porém, pude ser acometido de uma sensação até então nunca sentida por mim, algo que me dominou e me amorteceu dos dedos dos pés até meus fios de cabelo curtos. Aquele olhar desconhecido repentinamente me esquentou e, junto dele, trouxe-me a sensação de poder sonhar novamente.

Com o perdão do clichê, o qual todo escritor está destinado a cometer, apaixonei-me à primeira vista; literalmente ao primeiro toque dos olhos dela sobre os meus.

E, como se o tempo parasse, pude sentir o cheiro da curva de seu pescoço pairando pelo ar, o toque sutil da ponta de nossos dedos ao entrelaçarem-se. Aquele verde que pousava nos olhos dela trouxe à mente a urgência do desejo, uma vontade inevitável de desposá-la, completá-la. Era um gentil, talvez um pouco assustador, mas gentil e expresso sentimento de possessão, fato que devo culpar aquilo que antes nunca havia experimentado: o amor.

Com o toque de nossos olhos, amei-a com tamanha pressa; tudo para não perder nenhum momento de nossas vidas.

A ouvia gargalhar de nervoso enquanto apresentava-me como louco por ela. Via nossas mãos andarem juntas enquanto passeávamos pela Feira do Largo da Ordem. Nossos passos, em total sincronia, estavam juntos de nossos sorrisos, de nossos sonhos.

A pressa foi tanta que, ao notar, nossos filhos, os três, já contavam com mais de vinte anos.  Orgulhava-me disso, os criamos para serem homens, cavalheiros, apaixonados pela vida e pelo mundo. Ao lembrar-me das rugas que ela adquirira durante o tempo, as via sorrindo, calorosamente. Ela era linda.

 Nossa vida fora boa, entre tapas e beijos, tudo digno de um romance. Não tínhamos dificuldades em despirmo-nos frente um ao outro. Roupas largadas pela casa, palavras jogadas ao vento, sorrisos fotografados e eternizados em momentos. Amei-a mais do que considero ser possível. Mas, mesmo assim, tive de partir e deixá-la cuidar de nossa casa, tão dificilmente adquirida, sozinha.

Sei muito bem que ela não me culpava, e que sentia todos os dias a minha falta, fosse à hora do café da manhã, quando eu anunciava as principais manchetes do jornal e a imitava fazendo caras e bocas, deixando-a brava para depois cair no riso, ou, fosse à hora em que a derrubava na grama e a enchia de cócegas, e, até mesmo quando discutíamos e passávamos dois dias sem nos falar.

Podia ouvi-la chorar todos os dias, baixinho, para não incomodar alguém, justamente antes de dormir. Acho que sentia falta do meu beijinho na ponta de seu nariz e meu desejo de boa noite ao pé do ouvido. A via cheirar meu travesseiro, como se um resto de perfume pudesse haver.

Por mais triste que fosse vê-la sofrer daquele modo, no fundo, ambos sabíamos que havia feito dela a mulher mais feliz do mundo durante os cinquenta anos vividos como um casal, como uma família. Porém, chegou a hora em que eu morria, e isso era inevitável. Por sorte, morri antes. Egoísmo e sorte, pode ser, mas não saberia dizer como seria minha vida sem ela ao meu lado.

Entretanto, como tudo na vida, os dois segundos passaram.

Apesar de visto nossa vida inteira juntos, eu não existia para ela, não era ninguém. Quando passou, o rastro de seus olhos e o perfume impregnaram meu corpo, nauseando-me pela fértil imaginação. Nos dois segundos que nossos olhares se cruzaram, não parei de andar e cumprir minha rotina, mesmo tendo visto um longa-metragem de nossas vidas em câmera lenta.

Até meu ponto de ônibus, tragando a nicotina uma vez atrás da outra, não ousei levantar o rosto; não esperava vivenciar a perda de outro amor em menos de cinco segundos. Ela se fora, rapidamente, assim como viera, o que poderia eu querer?

Ao chegar em casa, despi-me da sujeira do Centro e sentei-me à máquina de escrever. Queria, ou melhor, precisava contar nossa história; o quanto ela ria enquanto eu tentava seduzi-la, do brilho em seus olhos enquanto eu lia meus votos em nosso casamento, dos gritos angustiantes de quando as crianças nasceram e, por fim, da solidão que lhe acometeu quando morri. Porém, talvez esta tenha sido a parte mais dolorosa da minha história, mais do que imaginar a minha vida sem ela; encarar a página em branco e perceber que não reparara em seu rosto, nem mesmo em seus olhos, muito menos na cor de seus cabelos. Isso me acabou.

Quem fora o amor da minha vida, afinal? Não conseguia lembrar...

Foi aí que percebi, ao ser escolhido pela profissão de escritor, apaixonar-me-ia sempre pelo que a minha mente pudesse criar, mas nunca pelo que de fato pudesse existir.

Não escrevi. Não me casei. Nem mesmo cheguei a conhecê-la ou a saber se ela realmente existiu. No entanto, pelo poder que me foi dado, sei que hoje amei, amanhã amarei de novo e depois também; por segundos diversos, por olhares diferentes. Viverei pela fantasia do amor. Amarei pela fantasia de viver. Até o dia em que meus olhos estiverem fechados e não puderem encontrar os de alguém, por outros dois segundos.





Conto
por Mellissa R. Pitta