quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Era uma vez... (ele) Sorria

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E ele se prostrou em frente ao vazio, ao seu vazio. 

Ali, do cume daquela montanha, podia sentir o cheiro do vento entrando por suas narinas, lambendo-o freneticamente com os aromas, às vezes doces, às vezes azedos, pertencentes à natureza. No meio da imensidão daquele céu aberto, não se sentia mais tão sozinho como o deveria. De lado havia deixado amigos, família, amores e suas desilusões, assim como todas as memórias que juntara durante seus quarenta e dois anos... tudo a fim de remediar o irremediável: ele nascera para viver daquela solidão.  

Sem ter ninguém ao lado, ali ele pôde finalmente encontrar a si mesmo. Via-se pela primeira vez e era tão pequenino, parecia até mesmo indefeso, apesar da carcaça vestida desde a primeira lágrima derramada escondida. Seu eu interior ainda tremia vendo como seu exterior acabara se deteriorando com o tempo; havia rugas, fios brancos, manchas na pele, lábios duros. Ele percebia existir uma máscara e ela era vazia. 

Ainda sem não muito entender, pôde ser tocado pelo seu eu interior. Sentiu os dedos graúdos fechando-lhes as mãos, um toque macio e forte ao mesmo tempo. Era acolhedor senti-lo voltando a si mesmo, era como se seu interior quisesse, e também pudesse, recuperá-lo de todo o vazio que vivera até dado momento. 

Ali, ao lado da figura de si mesmo mais jovem, emanando esperança e vontade de viver, descobriu pela primeira vez o amor. Mas não o amor carnal de jovens na puberdade, nem o amor acomodado de velhos casais. Sentiu um amor completamente mais maduro acender-lhe o peito, era algo experiente, digno de si mesmo e de todo caminho que ainda teria a trilhar.

De repente teve vontade de voltar. Abandonar todo o caminho percorrido sozinho e voltar à sua vida, voltar à sociedade. Achara a resposta que tanto procurara durante sua vida, não acreditando que ela estivera dentro de si o tempo todo: ele. Ele mesmo era a resposta.

Antes de dar meia volta e partir daquela trilha, ele pode ouvir o pio distante de uma águia. Ela aproximava-se com tamanha rapidez, até partir novamente. Fechou os olhos e imaginou-se junto dela, vivendo aquela liberdade dos pássaros, voando sozinho pelo céu, trilhando caminhos diferentes, sentindo o cheiro da natureza e sendo lambido pelo vento todos os dias.

Manteve-se de olhos bem fechados e abriu os braços para sentir novamente o vento lhe fustigar o corpo, ele era livre. Sentiu seu eu interior soltar-lhe as mãos, já não possuía mais forças para segurá-lo diante do mudo grito de liberdade. 

O amor se fora. Assim como ele, ao deixar os pés escorregar da pedra e cair montanha abaixo. No fundo, acreditou com a maior força possível que essa era a maior prova de amor; dar-lhe o que merecia desde sempre.

A águia piou uma última vez, dessa vez mais distante e leve. Aos aromas da natureza, juntou-se o cheiro doce do sangue. E o corpo dele, ao ser lambido pelo vento, apresentava uma última expressão:

(ele) Sorria.




Conto
por Mellissa R. Pitta