segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Era uma vez... Da falta de existir

Gravura "O Homem sem Rosto" de ~psicopaulo
Meu personagem não tem um nome.

Quer dizer, todos têm um nome ao qual somos patenteados ao nascer, então automaticamente ele também o tem. Mesmo com a certidão de nascimento e RG destruídos em um incêndio - que acabei de inventar -, meu personagem tem um nome. Um dia ele fora chamado de alguma coisa, tenho certeza. Como, afinal, sua mãe iria chamá-lo para brigar ao descobrir que ele deixara a mangueira da máquina de lavar roupa para fora do tanque, encharcando a casa toda?

Eu poderia então considerar chamá-lo de Irineu, Felipe ou Arthur. Joaquim ou Carlos também, porém, prefiro abster-me do direito de escritor de criar-lhe uma imagem que poderia – mas não é - ser a verdadeira. Talvez, no fundo, eu só deseje permanecer distante dele. Nossas semelhanças me assustam; acredite em mim. Ao dar-lhe uma identidade, sei que ele será como você ou eu. Você quer isso? Pois bem, eu não.

Ou então, adoro trabalhar com suposições – e você já deve ter percebido isso -; talvez, no fundo, eu só deseje que você adentre na história dele – ou seria na minha? - mais do que qualquer percepção racional imposta pela sociedade possa considerar comum. Quem, afinal, obrigá-lo-ia a ter um nome? Eu que não.

Decidi então, antes mesmo de começar a escrever sobre ele, que não o nomearia.

Meu personagem também não tem uma idade, apesar das rugas em sua face dizerem mais do que eu gostaria de saber. Exibe uma linda cicatriz na sobrancelha. Eu desejaria tê-la igual. Contar aos meus netos sobre como fui bravo e guerreiro ao cair de alguma árvore enquanto roubava maçãs. Mas, assim como o incêndio, acabei de inventar isso. Meu personagem não tem uma história a qual contar aos netos.

Ele pode ter sido um grande capitão ou decolado até a Lua. Pode também ter sido herói, rei, bedel e juiz. Ele pode ter tido uma história. Você – e eu – sabemos que sim. Porém, se ele tem, na verdade, confesso nem querer saber. Nem mesmo de sua história passada ou futura. Lembra-se? Quem, afinal, obrigá-lo-ia a ter uma história somente para poder existir?

Deixemos as banalidades impostas pela sociedade de lado. Por favor.

Ao entrar no palco da vida, ele sempre apresentou uma aparência comum a todos. De tão comum, talvez, chegou a ser invisível aos olhos humanos. Esse meu personagem que nasceu de parto normal, apesar da cabeça ser um pouco grande para o buraco de saída, veio para lembrar ao mundo que a alegria de uma nova vida dói, assim como vivê-la também. Ou, talvez, a grande coincidência de sua caixa cerebral enorme não seja nada, afinal, para que pregar moral da história em histórias que nem existem – ou devam existir -?

Sua infeliz vida foi contada através de gestos. Desde sua infância calada, até a adolescência revoltosa - também sem palavras -. Esse meu personagem nunca aprendeu a falar. Não as palavras comuns que didaticamente os professores têm o dever de nos ensinar, essas não. As palavras que ele dizia, de alguma forma para si, faziam sentido.

O que se passou com esse personagem, é de total insignificância. Pergunte-me, por que você, escritor, decidiu escrever sobre ele então? Confesso também não saber. De alguma forma, quando olhei esse personagem na rua – ou foi no espelho? - compadeci dessa alma doente, onde todos já o abandonaram, inclusive a lucidez. Foi esse meu primeiro pensamento que veio a tona ao analisar o caso. Mas, seria verdade? Todos já o abandonaram? Todos quem, afinal?

Se era um personagem sem nome... Se era um personagem sem idade... Se era uma personagem sem história... Automaticamente, era uma personagem sem ninguém. 

Um personagem que passou pela vida, observado através de um público de rostos desfigurados. Um público para ele sem nome, idade, ocupação ou história. Assim como ele, você e eu somos, afinal. 




Conto
Por Mellissa Fernanda