sexta-feira, 12 de julho de 2013

Era uma vez... Roteiro Imaginário



Feche os olhos e imagine. Clássica história francesa. Biquinhos, cigarros e elegância. Um roteiro pseudo-intelectual e alternativo. Essa poderia ser a nossa história. Eu poderia escrever isso. 

Segundo Loyola Brandão, que ouvi dizer, à beira de seus 80 anos: “A memória também imagina. A memória também pode ser ficcionista”.

Com isso, resta-me chegar à conclusão de que, aos poucos, poderia fazê-la acreditar em minha história, ou melhor, em nossa história. Talvez se eu lhe passar informações detalhadas daquele momento, como o fato de o brinco que você usava ser em formato de triângulo, na cor ouro, talvez assim a faça acreditar em mim, mesmo quando me olhar com os olhos fixos, enrugando a testa, procurando lembrar-se daquela noite. Ou talvez tenha sido dia?

Decidi pela noite. Lembro-me bem quando me falara o quanto a escuridão a encantava. Posso dizer, tão somente, que a achei um pouco sinistra depois desse comentário e, ao reparar na cara que fiz, inevitavelmente você sorriu, e, olhando-me nos olhos, suspirou:

“É na escuridão que conseguimos ver a nós mesmos; sem julgamentos, defeitos ou estereótipos”.

Você era um tipo completamente novo para mim. 

Sentamo-nos naquele bar que hoje posso chamar de qualquer. Inconscientemente, você escolheu uma mesa que ficava à esquerda, permanecendo distante dos transeuntes que pela rua passavam. Eu viria a descobrir mais tarde, caso a visse novamente, que esse era seu costume; sempre à esquerda. Nada tinha a ver com os passantes. Esquerda. Como se fosse um TOC, mesmo eu não compreendendo tanto essa generalização, uma vez que se viéssemos na direção contrária, a esquerda seria outra. 

“Mas, no fim, seria esquerda mesmo assim”, você completou meu mudo debate interno, olhando-me séria e fixamente. Não entendi.

Sim, optei por termos somente conversado naquela noite. Cria um pouco mais de intimidade, um pouco mais de laços entre mim, você e leitor, apresentando-te como a louca que não sei se é.

Somos, ou então seríamos, mais que um casal. Um trio. Um quádruplo. Isso de acordo com quantas pessoas leria isso que vos escrevo. Talvez nenhuma. Talvez nem mesmo você. E eu, se consciência tivesse, também não. Mas, não me importa. Rememorar os minutos que passamos, para mim, pode-se dizer mais que incrível.

Nosso embate de palavras para conhecermo-nos, confesso, foi tomado somente por sua iniciativa. Abstive-me desde o primeiro minuto a detalhadamente contar as marcas de teu rosto. Pinta número um: bochecha direita, grande para uma pinta, pequena para um tumor. Poros no meio do caminho. Contei até seus poros, mesmo parecendo doente quando comento isso em voz alta. Não se assuste, por favor. Havia também três pintas à direita do lábio inferior, poderiam sem facilmente confundidas com a constelação de Três Marias. Instintivamente sorri da associação que meu cérebro fizera; ao notar, perguntou-me no que via graça.

Por muitos segundos pensei em não respondê-la, teria sido melhor. Evitaria, assim, qualquer sentimento de autodepreciação mais tarde, mas, ao contrário disso, é claro, contei-lhe, depois de tanto mirar o pedido estampado em seus olhos. Eles eram escuros, fortes.

Não me recordo se você riu naquela hora ou horas depois. Mas ainda assim, lembro-me de ter ouvido a candura de seu riso, sentindo o afago de borboletas que me cutucavam o estômago. Sim, sei o quanto fui e ainda sou precipitado ao falar que o fato de vê-la e ouvi-la rir me deixava com borboletas no estômago. Mas, afinal, como coibir uma sensação que é causada instantaneamente? Desculpe-me, sem mesmo te dever o pedido. E, mesmo sabendo que se o devesse, você, birrenta, não aceitaria.

Do que saiu de minha boca, sei que não é necessário, muito menos recomendável descrever tais linhas bucólicas aqui. Prefiro somente inclinar-me para você e o fato de descrever como mexia lentamente os dedos, fazendo círculos com a água deixada pelo suor do copo de cerveja na madeira fria da mesa.

Isso que vos falo, aliás, não apresenta nenhuma importância histórica, cultural ou até mesmo didática. Não lhe acrescentará nada mexer os olhos da esquerda à direita, linha por linha, a fim de chegar ao final disso que lê agora. Não mudarei o mundo com minhas palavras. Não mudarei nem a mim mesmo com elas. Mas ainda tenho esperanças que, talvez, se depois de tanto escrever, possa livrar-me desse sentimento angustiante de que algo existe dentro de mim. Estou então a retirar tudo isso. Tenha paciência. Ou não.

Sei até hoje quantas vezes exatamente umedeceu os lábios, seguido pela ação de uma mordida rápida no lábio inferior. Não era seu intuito me seduzir; hoje sei que não, mas, nas ações mais impensadas e comuns ao seu jeito e dia a dia, levava-me por um caminho que, viria eu a descobrir depois, sem volta.

Sim, apesar de odiar-te com todas as letras, essa visão de você agrada-me mais do que a de minha boca aberta, saindo moscas e absurdos, bobeiras inócuas que, apesar de fazê-la rir, sabia eu que era de mim, não comigo.

Meu encontro com uma desconhecida, como você um dia fora e ainda o é, talvez fique para sempre na minha memória, a fim de que fora burro o suficiente ao deixá-la ir.

Quando me pediu o beijo de despedida, visualizei internamente mil e uma maneiras de fazê-la ficar, ainda que fosse mais um pouco. Intimamente, desejava que fosse mais um dia, que fosse mais um ano, que fosse a vida inteira.

Optei, tão somente, em pedir que ficasse, o que não adiantou. “Meus avós me esperam em casa.”, resumiu.

Voltei às imagens, então...

Eu poderia roubar a distância entre nossas tímidas bocas. Porém, sabia que você, ao sentir o gosto mais que sem graça dos meus lábios, fugiria assim, mais que depressa.

“Minha avó ligou.”, desculpar-se iria.

Eu poderia, ‘sem querer’, tocar-te a mão. Você sentiria imediatamente as faíscas de uma paixão ao primeiro toque e pediria para que fugíssemos. Nordeste. Mesmo sabendo que não gosto de calor, ou talvez não soubesse; será que eu havia lhe contado desse meu particular desgosto naquela noite?
Eu poderia também segurar-te pelos cabelos, forçadamente, e, olhando no fundo dos seus olhos, empunhando a mais maligna face, afirmar: Você vai comigo. Jogar-te dentro do carro, amarrar a delícia e fartura dos lábios com um pano qualquer e prender as delicadas mãos com o cinto. Sequestro. Cárcere privado. De dois a oito anos.

Eu poderia muitas coisas. Poderia ser galã, forte, experiente e inteligente. Poderia ser seu, se é que já não sou, mesmo não sendo minha. Poderia ser rico, ter carro e um Iphone. Poderia ser esperto, ter vergonha na cara e deixar essas linhas para trás. 

Poderia muito, mas nada sou. Nem para você, nem para o mundo, nem para mim mesmo. Eu poderia, sei disso, mas não sou.

E, no fim, você foi embora. Não me contou seu nome, sua idade, nem onde trabalha. Não tenho seu telefone, e-mail, muito menos o seu endereço.

Será que realmente mora com seus avós? Recai-me agora a dúvida se esse encontro, assim como você, é, de fato, real, ou se é somente aquela memória ficcionista que ouvi Loyola tão sabiamente citar.

Na dúvida, peço que me responda, caso lembre-se de mim, da mesa molhada do bar, das bobagens saídas de minha boca, do brinco triangular de ouro, do fato de que não gosto do nordeste, se é que realmente lhe contei isso.

Por fim, concluo contando que, por mais de um ano voltei àquele bar, cultivando qualquer esperança de vê-la perdida pela rua novamente.

“Moço, pode dizer como chego ao Largo da Ordem?“

“É só descer quatro quadras. Estou indo até lá no exato momento, pode me acompanhar, se preferir.

“Acompanho-o se sentarmos para uma cerveja”. Você sorri.

Sim, você propusera. Se dependesse de mim, tais palavras nunca sairiam de minha boca. Você propusera. Você. Por que, afinal, se nem seu nome me deixaria saber ao término do que nem posso chamar de encontro? Mas você propusera.

E, no ano seguinte, em que todos os dias permaneci no mesmo lugar, não mais a vi, não mais me pediu informação, não mais me convidou para uma cerveja. Nunca mais.