segunda-feira, 15 de julho de 2013

CONTA MAIS!

Hoje o CONTA MAIS! vai apresentar um pouco da história do fotógrafo Márcio Pimenta, de 38 anos. Com formação em Economia, e com doutorado (ainda não concluído) em relações internacionais, pela Universidade de Santiago de Chile, e em meio ao mundo diferente ele descobriu a fotografia.
Márcio nasceu na Ilha Solteira em São Paulo, e agora vive temporariamente em Floripa, sim temporariamente, a fotografia e a vida o levam para vários lugares diferentes. Acompanhe o bate-papo, conheça suas lindas fotos e seu site.

Como e quando começou seu interesse por fotografia?
Desde criança sempre gostei muito de fotografar, mas a fotografia como ferramenta de trabalho e expressão artística começou muito lentamente a fazer parte da minha vida. A primeira fase aconteceu quando eu estava escrevendo o trabalho de conclusão do curso de economia e eu precisava documentar a ocupação da Petrobras na ilha de Madre de Deus, na Bahia. Invadi as instalações e registrei como a população local vive cercada de dutos de óleo. A segunda fase aconteceu durante uma viagem de 4 meses pelo sertão da Bahia, Sergipe e Alagoas, quando registrei o uso de energia solar em comunidades isoladas. Ainda nesta fase, fotografei também a vida dos Sem Terra em Eldorado dos Carajás, Pará. Por fim, veio a fase decisiva, quando decidi me tornar fotógrafo. Eu tinha que ir a Medellin, Colômbia, para uma pesquisa dos meus estudos do doutorado. E, claro, eu sabia que encontraria paisagens incríveis. Então investi numa reflex digital. Ao retornar da viagem eu já sabia que queria ser fotógrafo. Ainda assim, passei meses antes de efetivamente abandonar o doutorado para me tornar fotógrafo. Não foi uma decisão fácil, mas quem disse que seria? Fui honesto comigo mesmo e hoje estou feliz.

Qual foi a sua primeira câmera e qual é a sua companheira atualmente?
A primeira foi uma Canon EOS 3000 analógica, depois migrei para uma Canon Rebel XSi e agora uso uma Canon EOS 7D.



Atualmente uma foto sua foi selecionada como finalista para o concurso de nível mundial da National Geographic Traveler 2013. Como foi esse reconhecimento? E conte um pouco sobre a história da fotografia, onde foi tirada e em quais circunstâncias.
Foi sensacional quando vi uma foto de minha autoria escolhida entre as "Top Photos" pela seleção do editor. É um concurso extremamente disputado, cerca de 5.000 fotografias foram enviadas para a categoria que participo (Outdoor Scenes) e ter minha foto entre as finalistas, por si já foi um prêmio para mim que decidi me dedicar exclusivamente a fotografia há apenas um ano e três meses.
A foto foi feita em março deste ano, numa viagem para Itacaré, na Bahia, um paraíso para os surfistas e vida ao ar livre. Eu estava com minha musa e decidimos ir ver o pôr-do-Sol do alto de umas pedras, onde se pode ver o encontro do rio com o mar. Comecei fazendo aquelas fotografias tradicionais do pôr-do-Sol, foi quando apareceu um sujeito remando numa prancha e que se divertia enfrentando a maré vazante. Ele avançava e recuava constantemente. A luz já estava ficando bastante baixa e eu tinha deixado o tripé no carro. Mas mantive o ISO em 100, baixei a velocidade para 0.5 s, compensei a abertura em um ponto negativo e mantive a câmera o mais firme que pude. Foi bastante desafiante, pois sabia que o cara da prancha não resistiria tanto tempo contra aquela maré. Então consegui o que queria, o movimento fluído das águas e ele lutando bravamente ao fundo.
Agora a foto irá para a seleção final do júri. Minhas chances são pequenas, pois a concorrência é extremamente forte. De qualquer forma, já estou muito feliz.


Como é fotografar tantos lugares e culturas diferentes? Qual lugar você mais gostou de fotografar, por qual motivo?
É fascinante. Mas eu tive sorte, pois as viagens começaram antes mesmo de me dedicar a fotografia. Como estava sempre viajando para pesquisas de campo, primeiro no mestrado e depois no doutorado, a habilidade de conversar com desconhecidos se desenvolveu naturalmente. E descobri que todas as pessoas adoram ser fotografadas. Mas contar a história de um lugar e das pessoas que ali vivem é a parte mais desafiadora.
A cidade mais bela que já estive sem dúvidas foi Paris, mas infelizmente eu não fotografava na época, então como fotógrafo o lugar que mais gostei de fotografar foi a viagem que fiz ao Peru no ano passado. Houve uma sintonia entre mim, a parceira, as pessoas do local, tempo e espaço. É um país fascinante. Percorremos a maior parte do país de ônibus e trem, enfrentamos uma greve de trabalhadores mineiros e ficamos isolados por dias no deserto de Huacachina e mesmo assim a sintonia foi perfeita. As pessoas são muito amáveis e receptivas e possuem uma cultura riquíssima na gastronomia e tecelagem.

Se você soubesse que era seu último click, o que retrataria?
Ela, a minha musa. Quando meus olhos fecharem é a imagem dela que quero levar como última lembrança.

O que você tem de estranho ao seu modo? 
Não sei porque acontece isso, mas sempre que estou num engarrafamento tenho a mania de somar a placa do carro que está a minha frente. As duas primeiras dezenas com as duas últimas. Ex.: HJC 1288 =100.

Qual foi sua melhor viagem? E qual lugar gostaria de conhecer?
Não sei te dizer precisamente qual foi a melhor de todas, pois as vezes uma viagem de um único fim de semana em uma cidade pequena como Cachoeira, na Bahia, significou mais que noventa dias na Espanha, por exemplo. No fundo, acho que minha melhor viagem ainda está para acontecer. Quero voltar a Paris e a Colômbia. Depois quero fotografar Havana, Toscana, Nova York, Nova Orleans...



Se estivesse pegando fogo sua casa, e você só pudesse salvar uma coisa, o que salvaria?
A mim mesmo! Posso perder qualquer coisa material, pois sei que posso recomeçar tudo novamente e quantas vezes forem necessárias.

O que não pode faltar em sua bolsa de equipamento?
Além dos equipamentos em si, ou seja lentes, câmeras e acessórios, também não pode faltar meu iPhone. É com ele que pego todas as referências geográficas, GPS, condições do clima, monitoro os horários da luz solar, etc.


Quais são suas referências e inspirações para fotografar?

Minhas maiores referências e inspirações estão fora do campo da fotografia. Adoro as pinturas de Modigliani, a música dos Rolling Stones (o disco "Exile On Main Street" é uma obra-prima) e de Bob Dylan, o maior poeta vivo que conheço. Vocês já prestaram bastante atenção na música "Like a Rolling Stone"? Uau! Aquilo é sensacional!

Na fotografia, gosto muito do André Liohn, David duChemin, Sebastião Salgado, Annie Leibovitz… enfim, todos estes ícones, mas tento não olhar muito para o trabalho deles e de nenhum outro fotógrafo. Aprecio apenas ocasionalmente, quando busco alguma inspiração para um projeto, uma ideia, mas evito olhar constantemente para que não me torne condicionado a um estilo, já que ainda estou descobrindo o meu.

Qual é seu sonho dentro da fotografia?
Fazer um trabalho encomendado pela revista National Geographic e ter a minha própria galeria.



O que a fotografia significa para você?
Um espelho. Se estou feliz ou triste, por qualquer motivo, logo você percebe pelo tema que escolhi fotografar. Amo tanto a fotografia que sou completamente transparente. E é também um encontro. Depois que comecei a fotografar, tudo em minha vida começou a se encaixar, fazer sentido. Foi transformador para mim.

E se não fosse fotógrafo, qual profissão seguiria?
Provavelmente seria um acadêmico da área de relações internacionais e estaria preso em um escritório qualquer teorizando sobre coisas que não vivi.

Qual é sua foto predileta? 
Nossa, tenho muitas fotos que gostei muito de ter feito. Citarei algumas, mas com certeza vou esquecer de outras. Tem esta foto dos garotos saltando nas águas da Baía de Todos os Santos na Bahia, uma senhora tecelã em Cusco, Peru, um pescador em Florianópolis, Santa Catarina, o show das águas e luzes em Lima, Peru, a bicicleta de Valparaíso, Chile, o topo do vulcão Osorno, também no Chile, e claro, a que está no concurso da National Geographic.



Indique um filme e um livro para os leitores do blog.

Recomendo o livro que escrevi, "Um Olhar para o Sol". Infelizmente não consegui uma editora e nem tive grana na época para publicar de forma independente. Então mesmo sofrendo da necessidade de uma revisão disponibilizei para download gratuito.

Também sugiro que leiam "Viver para contar", uma autobiografía narrada no estilo realismo mágico que só o Gabriel Garcia Marquez poderia fazer.
E filme, a minha sugestão é "Orgulho e Preconceito", com a belíssima Keira Knightley e que foi baseado no romance de Jane Austen.