segunda-feira, 17 de junho de 2013

Era uma vez... Palavras que desejam




E como um escritor que sonha com palavras e frases e situações, ele sonhava de longe. Observava mais do que mudo, não por opção própria, todas as ações dela. E as descreveria assim, se o pudesse: 

Todos os dias, sem saber se era o exato horário ou uma coincidência mentirosa, ela chegava. Caminhando como que insegura até a mesa mais longe, a mais reclusa de todas, ao lado da parede, sentava-se sem nem mesmo erguer a face. Todo o trajeto já lhe era decorado. Erguendo nos braços fortes a cadeira, aproximava a barriga da borda da mesa a fim de fincar-se nela. Não deixava nem mesmo um centímetro entre sua barriga lisa e a borda da mesa. Os seios redondos, grandes para a magreza doentia dela, sustentavam-se no móvel de madeira velha, ganhando maior volume. 

Como em todos os outros dias, ela vestia a mesma camisa branca puída dentro da mesma calça larga de brim que lhe roçava o meio das pernas finas. Possuía uma aparência de algum jeito atraente, diferente dos outros ratos de biblioteca que ali frequentavam. Era uma aparência completamente alheia ao ambiente e todos que em volta a fitavam. Dos cabelos, ele só poderia dizer sobre a maciez que de longe aparentavam, as pontas mais claras que a raiz caiam-lhe nos ombros, despenteadas. 

Como num ritual, ela retirava de dentro da mochila escancarada no chão, um grosso e pesado exemplar. De longe ele não enxergava, mas podia imaginar a textura daquela capa dura, as letras serifadas, Les Miserables, apostaria pelo tamanho. Curvando a espinha, até ficar em uma posição que seria desconfortável para qualquer um, ela abria o livro e com o nariz grande demais e quase colado ao impresso, deixava-se levar. Por algo mais que uma hora, ela permaneceria lá, estática, movendo pouco mais que somente os olhos da esquerda à direita.

Ao observá-la chegar de longe, como sempre o fazia, ele já sentia um desconforto descomunal crescendo em algo que podia chamar de peito, se o realmente fosse. Observava além da chegada, todo e qualquer minuto que preencheria aquela talvez uma hora em que ela estaria ali, as vistas dele. Reparava quando lentamente ela franzia a testa, cerrando pouco mais os olhos, ou então quando lentamente levava o dedo indicador direito aos lábios carnudos, e depois de umedecê-los com a língua rosada, virava a página. Observava o arredondado dos seios sobre a mesa, subindo e descendo, arfando lentamente, e a feição a cada página, as expressões de surpresa, alegria, decepção, viagem. 

De alguma forma, mesmo que impossível, ele era apaixonado por ela. E no fundo, mais profundo que seu epílogo, ele só queria que ela o retirasse das entranhas da prateleira, da incrível solidão que o acometia.. queria ser notado, tocado, e mais que tudo isso, vivido. Afinal, para quê ser um livro, se livro não poderia ser? Para ele, "ser e estar" o eram marcas de saliva no canto inferior de suas páginas à direita; leitores despidos da lucidez viva. E em síntese, era isso que ele não o era. 

E mesmo com o passar dos dias e do desejo reprimido, ele sabia nunca servir para ela, afinal, suas míseras cento e vinte e cinco páginas, sua capa mole e letras garrafais, em nada a chamariam atenção. 

Como nem sempre presenciamos finais felizes, na prateleira esquecido, sabia poder ser classificado de livro não-livro, e permaneceria para sempre lá, longe dos olhos, dedos, línguas e seios dela, apenas observado. Desejando.