sexta-feira, 17 de maio de 2013

Era uma vez...




Ela era conhecida por ter um coração grande. 
Não, não se tratava do simbolismo incutido na expressão somente. Ela era conhecida por ter um coração grande devido a uma pré-disposição genética. “Cardiomegalia”, dissera o médico aos pais enquanto ela fingia dormir após uma bateria de exames. 
Mesmo assim, doença, sintomas e tratamento, não a impediam de amar mais do que o necessário. Disso tinha certeza.
Ela era conhecida por ter um coração grande. Literal e simbolicamente falando.
Amar, segundo o dicionário online é: ter amor, afeição, ternura, dedicação, devoção a; querer bem, estimar, gostar, apreciar. É um verbo do tipo regular, e sua separação de sílabas se dá da seguinte forma “a-mar”. Seus sinônimos são: adorar, apaixonar e gostar.
Amar, segundo a percepção dela é: ter amor, afeição, ternura, dedicação, devoção a; querer bem, estimar, gostar, apreciar... sofrer.
Disso, por mais que não quisesse, era o que ela mais entendia.

Colava cartões e cartazes pelo quarto e todos os lugares pelos quais passava em sua casa. Neles continham frases que prometeu a psicóloga ajudar com a ‘altoestima’, que sempre fora baixa, - com o perdão da piada -. 
Recebia dos pais algumas mensagens elogiosas, exageradamente elogiosas, as quais já nem se dava mais ao trabalho de abrir e ler, pois já sabia que pela frente provavelmente viria alguma frase do tipo “para amar alguém, você tem que amar primeiramente a você mesma” – LISPECTOR, Clarice (segundo alguns amigos do meu Facebook).
Sim, ela sofria. E não era por causa da falta de ar e fraqueza que a cercava sempre que se aventurava subir alguns degraus. Nem mesmo os desmaios, cada dia mais frequentes. Ela sofria, e dessa vez simbolicamente, do coração.



Pela vigésima vez no dia, ela mandou a ele uma mensagem. Trava-o de amor, bebê, coração, anjinho. Sentia essa vontade imensa de contar para ele cada singular coisa que acontecera durante seu dia. 
13:58 - “Amoooor, você não vai acreditar... acabei de levar um pacote no meio da rua. Q-U-E V-E-R-G-O-N-H-A, rs. Não sei quem riu mais, se fui eu ou o moleque que estava parado na fila do ônibus. Beijos <3”
Talvez ela fosse carente. Daquele tipinho que precisava de atenção a todo e qualquer minuto. Seria isso um grande problema? Não o deveria ser, já que fora ele quem a pedira em namoro.
13:59 - Mensagem enviada com sucesso.
E como nas últimas dezenove mensagens, passaram-se minutos, e vir-se-iam a passar horas, sem que ela recebesse alguma resposta.
Talvez fosse esse o exemplo mais banal para resumir a história dela. Ela = o amava. Ele = também. Ela = era dependente. Ele = não. Durante a semana se falavam somente o necessário e rapidamente. Ela sabia que ele não era muito de papo, mas o que fazer quando ela era?
...
Foi lindo durante o primeiro, o segundo e o terceiro ano – eles estavam no quinto. Lindo para ele, deixando claro. Ela, conhecida por ter um grande coração, sofria mais, desmaiava mais, fraquejava mais. Sintomas psicológicos e físicos. Psicossomáticos.
Sentia em cinco, dos sete dias da semana, que ele não mais gostava dela. Até encontrar-lhe o olhar e novamente se perder no esverdeado de suas iris.
Falta de romantismo e cuidados a parte, ela o entendia e suportava a situação. O amava. Sempre deixando claro, porém, que não aprendera a deixar de procurar, a esperar ser procurada, e no fim, sempre se decepcionar.


Ela era conhecida por ter um grande coração.
Mas, em breve, seria conhecida somente pelo simbolismo incutido na palavra.
Depois da tentativa frustrada de usar um pacemaker, e mais cinco anos na fila, ela finalmente ia fazer um transplante de coração.
Beijou os pais e o namorado uma última vez antes de ser levada para a sala de cirurgia.


Ao acordar na brancura do quarto hospitalar, estavam os três a sua volta. Ela olhou por um, dois, dez minutos. Dois homens e uma mulher. A testa enrugada em uma interrogação.
Durante a cirurgia, enquanto a abriam, sofrera uma parada cardíaca, e toda a sistemática de reanimação fizera a ela um favor.
Sem lembrar-se de nada, nem ninguém, a menina conhecida por ter um grande coração, não o tinha mais, no sentido literal e simbólico da expressão.
Esquecer, segundo o dicionário online é: fazer com que algo saia da lembrança, pôr em esquecimento, sair da memória, perder a sensibilidade.
Esquecer, segundo a percepção dela é: fazer com que algo saia da lembrança, pôr em esquecimento, sair da memória, perder a sensibilidade... paz – mesmo que sem querer.