terça-feira, 16 de abril de 2013

Era uma vez... O Cavaleiro


Eu poderia ter escolhido o telefone de qualquer amigo meu. Eles, como amigos, de certa forma me devem isso. É o que diz o manual da vida.

Sim... Talvez não.

”aliás, lembra-te de quando emprestou dinheiro para Joãozinho, ele ainda não te pagou”, não, isso não é motivo o suficiente.

É sim... Talvez seja. Talvez não.

Vasculhei pela quinta vez a agenda do celular, de A a Z, de Z a A, não encontrando alguém que disposto eu estivesse para conversar.

Talvez seja isso. De que adianta ter amigos sendo que nenhum deles presta-lhe unicamente como bom ouvido, que seja.

Sentei-me ao computador. A aba do Google aberta à frente. 
Digitei. Apaguei. Novamente digitei. Enter.

“RIDÍCULO!” – fechei a aba antes de esperar o resultado de minha pesquisa aparecer.

Saí da frente do computador para dar uma volta pelo micro e vazio espaço do apartamento, para logo em seguida posicionar-me novamente em frente à outra aba aberta.

GOOGLE. Centésimos de segundos. DISQUE SEXO. Resultados em 0,19 segundos: APROXIMADAMENTE 912.000.

“é, eu não sou o único louco, desesperado por afeto verbal”

A mãozinha pairando sobre o primeiro resultado da busca. Qual é o problema, afinal, já que o site me garante 100% de segurança e prazer: RESULTADO GARANTIDO anuncia. Isso é coisa que se escreva em um anúncio de sexo interurbano?

“talvez minha formação em Publicidade e Propaganda não tenha me ensinado muita coisa”

Disquei antes que de uma forma ou outra pudesse desistir. Foram necessários somente dois toques para que a voz forçadamente sensual entrasse na linha.

“então é isso! Essa voz que faz falos enrijecerem?”

A voz que prometia resultado garantido pedia-me para personificar-me em fantasia e, sussurrando quase inaudível, pedia que encarnasse o papel.

- solitário cavaleiro. Em busca do perdido amor. A vaguear sobre pastos e lama, desafiando distâncias enormes e depressões profundas. “Se um dia sua musa pudesse vê-lo como príncipe novamente”, lamenta. Procura retirar do peito a força existencial para que a longa busca não cesse. Vazio. Vazio. Vazio. O peito e alma arrependidos.

Sob pedidos da sensual voz da aposentada de cinquenta anos que faz bicos para sustentar três netos da única e perdida filha, continuo, sem saber ainda o porquê.

- como apresentar-lhe tal lobo solitário se nem mesmo sua alcateia o reconhecia mais? Excluíra-se ou deixara-se excluir? Preferia a palavra fugir, confessa, mesmo sabendo que não era tão verdade quanto seu cérebro tentava lhe fazer acreditar. A culpa era da donzela, afinal? 

Senti que, do outro lado da linha, ela baixava a guarda, confusa com o que era tudo aquilo. Safadezas? Putarias? Palavras sujas? 

“talvez isso fosse o sexo de pessoas inteligentes”, chego a imaginá-la pensando. 

- a culpa era do cavaleiro. Até onde se deixara levar por tão instigante pecado, a ponto de ofender todos os sentimentos que hoje buscava em alguma outra donzela. Sabia que perdida era a busca, mas, como punição, desafiara-se a virar o mundo, como um grande mentecapto que era, em busca daquilo que deixara de acreditar.

Poetizei o fato. Talvez minha querida amiga não tenha entendido tudo isso. Suspirava do outro lado da linha.

“ou talvez seja somente a ordem do script”



- cansado da busca a qual havia se condenado, o cavaleiro sentara em frente um grande carvalho. Sob a sombra, memórias fustigavam-lhe a capacidade de discernimento. A culpa ferroando-lhe o peito. A visão de sua dama, inativa, dura, gelada. Sem ar. Quanto poderia ele tê-la decepcionado, se não o suficiente para tirar-lhe a própria vida. O suficiente. É, o suficiente. 

Do outro lado, os suspiros de repente cessaram. Talvez ela tivesse entendido que duro, não é somente pica que pode ficar. Um corpo inerte, gelado, morto, talvez não seja assim tão excitante. Sem graça, ela pede-me para focar a história no quanto eu a desejava. No quanto e como.

- morta. Ela estava. Ele estava. Não ainda. Em breve.

Minha amiga tossiu. Pediu que eu parasse. Talvez tarde demais. Com o telefone sem fio, rumei ao quarto, aposento menor do que poderia se esperar pelo preço que eu pagava mensalmente. Ali estava ela, doce, em versos e poesia. Um fiapo de riso estampava-lhe a face. 

“a filha da puta premeditara tudo.” 

- ele não queria mais buscar o inatingível. Queria encostar-se novamente a ela. Como num pedido de eterno perdão, dando cabo daquela vida que já não possuía mais. De repente uma vida. Agora, a sua.

E não sei muito bem se ela entendeu o que se passava. Mas, em cinco segundo pude sentir a pressão da corda que me prendia as cordas vocais. Pude ouvir um distante “quê foi isso?” de uma voz já normal do outro lado da linha, ao mesmo tempo em que o telefone fazia um baque surdo ao cair no chão do apartamento. 

E inerte permaneci sem chão ao lado do corpo da dama traída. Ambos no ar. Os lábios roxos. A vida sem oxigênio. 

Sem ter sido cavaleiro ou ter viajado distâncias em busca de um perdão imperdoável, morri como covarde que sou. Anunciei para uma puta, ou talvez somente uma senhora que sustenta três netos da única e perdida filha. Anunciei a ela o fim da minha biografia. Sabendo que enfim, nunca seria escrita.