domingo, 17 de março de 2013

Era uma vez... Carta a ninguém



Sentei-me à sua frente. Confesso que o ônibus estava vazio, e que havia lugares de sobra para que eu pudesse escolher, mas preferi ficar à sua frente. 

Sei bem, não a conheço, mas isso não me importou aquela hora. Ao entrar no ônibus, de longe pude perceber-lhe, notar seu olhar. Ele era grande. Daqueles que sempre me encantaram. A única certeza que hoje tenho, é que algo andava mal e eram eles que me diziam isso.

Estávamos em pleno verão, numa daquelas noites em que o céu brilhava de tantas estrelas e o calor nos permitia andar de manga curta. Você se lembra? Talvez não, talvez não tenha reparado na incrível noite que fazia. Talvez simplesmente se pergunte: “é realmente de mim que estás falando?”. Pode ser que sim, pode ser que não.

Assim como eu não lhe conhecia quando sentei à sua frente e pude ler em seus grandes olhos tudo que se passava, você também não me conhece quando senta à minha frente e decide ler esta minha carta.

A pontinha de seu nariz estava vermelha. Achei até graça! Pensei, logo de cara, que se tratava de um resfriado de verão e no quanto era azarada por isso.

Imagens Google

Concentrada, você estava a mirar o vazio das ruas cheias de carros em nosso trajeto. E eu, também concentrado, a lhe notar, detalhe por detalhe, com certo toque de curiosidade e... medo, devo confessar.

Em menos de cinco minutos, pude eu contar, você à minha frente, ainda a mirar o vazio das ruas cheias de carros, permitiu que os grandes e arredondados olhos se enchessem de água. Como se, de alguma forma, alguém houvesse lhe beliscado, justamente naquele instante.

Não entendi, e nem pudera. Não a conhecia. Assim como você não me conhece.

Mas, ainda assim, só de encarar-lhe com os olhos pesados de lágrimas, que amargas escorriam-lhe às magras bochechas, deixei-me encantar pelo momento.

Doeu-me o peito vê-la assim, tão desolada em meio a seus demônios internos. Intrigava-me não saber o que se passava em meio àquela quietude, e numa onda de pensamentos atônitos, cheguei a conclusões absurdamente tristes, das quais nenhuma delas deveria ter alguma ligação com a verdade.  

E em poucos minutos, como se a conhecesse, recebi sua dor em forma de lágrimas, as quais também saltaram de meus olhos, inevitavelmente. Pretendia roubar-lhe tal aflição, guardar para mim, em troca de um olhar sem dissabores e, talvez, um tímido sorriso.

Alertei-me ao fato de que a dor não era minha, porém, já era tarde demais. Com o peito inflamado instantaneamente, não pude perceber, mas sabia; meus olhos apresentavam a mesma aparência inconsolável e vazia.

Lamúrias por lamúrias, tudo o que desejei não se realizou. Tentei retirar-lhe o buraco do peito, esburacando o meu em um singelo gesto. Porém, em pleno deslocamento do coletivo, você, com os grandes e molhados olhos, mirando o vazio das ruas cheias de carros, nem reparara em todo o meu esforço.

 Desci tentando esconder da multidão o vácuo que se instalara em mim. Assim como eu não a conhecia, e você não me conhece, eu também nunca soube o porquê você estava chorando, assim como não soube o porquê eu estava chorando. 

Mesmo sabendo, bem no fundo, que, de uma forma ou outra, a culpa era sua.

Imagens Google