domingo, 17 de fevereiro de 2013

Era uma vez...




História em Branco

Leu. Releu. Retirou a página da máquina de escrever. Amassou e a jogou no lixo. Uma, duas, mil vezes...

Ele sentou-se novamente em sua cadeira almofadada. A cabeça fervilhando em milhares de informações, ideias, pensamentos, rancores. Olhou novamente para a lata de lixo, no canto leste de sua sala; sentia dali o cheiro da falta de um bom texto. Levantou-se, e ali, dentro do latão, com o fósforo que acendera seu Marlboro vermelho, ateou fogo ao filho indigno.

Não mais queria sentir aquele cheiro, não mais queria sentir aquele desespero que pulsava frio em seu sangue. Ele sentia que precisava escrever, era como uma necessidade, uma condição humana, como comer ou até mesmo ir ao banheiro, mas ainda assim, sua cabeça se negava a dar-lhe mais do que uma simples palavra. NADA.

Tragou uma, duas, três vezes seu vício, sem pausas. Devido à grande quantidade de nicotina ingerida sentiu a cabeça aos poucos tontear, ficar leve, mas, não vazia. Sua pressão caíra, assim como seus joelhos, despencara. De joelhos no chão frio, encostara a testa na madeira e rezara. Rezara por sua alma, por um pouco de ideias, pelo mínimo que precisava. Rezara para um deus que não acreditara e que nunca o ajudara.



A cor, aos poucos, retornava aos seus lábios e face.

Voltou à sua cadeira, pensou em quanto ela lhe era desconfortável. Era uma cadeira antiga, comprou-a em um antiquário. Não pensara, na época, qual o motivo de no meio de sua sala, recém-mobiliada, ter uma joia rara como aquela. Madeira grossa, pesada, relicário francês, com uma grande almofada vermelha, já gasta. De certa forma, em algum momento ela fora confortável, mas hoje, para ele, já não era mais.

Fácil era distrair-se com uma bela cadeira, escrever sobre, é que era difícil.
Encarou então o seu maior medo. Não, não o encarara fixamente, mantinha um dos olhos fechado. Se era seu maior medo, é claro que não teria coragem para abrir os dois.

Havia uma nova página em branco no seu medo. O monstro teclava, e ele podia ouvir o som do bater daqueles botões semienferrujados, as perseguições dos pesadelos dizendo-lhe que era um fracassado, ENTER... Que nunca conseguiria escrever algo que prestasse, ENTER... Que papai e mamãe estavam certos, VÍRGULA... Ele não era ninguém, PONTO FINAL... Morra, EXCLAMAÇÃO... ENTER, ENTER, ENTER, ENTER, ENTER, ENTER, ENTER, ENTER, ENTER... Glupt, a folha foi cuspida aos seus pés, descalços. Tremendo, deixou-a lá, no chão, onde talvez fosse o seu lugar.

Não queria mais ver o rosto de seus pais, não queria mais sentir o gosto de suas críticas. Nem dos pais, nem do mundo.

Deitou-se no chão empoeirado de sua sala e, pela primeira vez, se perguntara quando havia sido a última vez que a varrera. Não tinha nenhuma lembrança de ter pego a vassoura, muito menos usado-a; talvez esse fosse o motivo da grossa camada de pó que ali se instalara. Tudo aquilo, afinal, eram sua única companhia, o pó, a máquina de escrever, o lixo, seus cigarros e a falta de lembranças, ahhhh... a falta delas!

Sua vida ali se resumia apenas a isso. Ele era um porco solitário, afastara-se de tudo à sua volta; sua família, amigos, casos, livros. Preferia assim. Afinal, nada mais o conseguia deprimir, a não ser o fato de não ter NADA, nem mesmo uma linha.

Ou será que tudo e todos é que haviam se afastado dele? Não sabia a resposta para esta pergunta, e muito menos tinha fôlego para tentar respondê-la. Deixou o fato em análise de lado; cansava-lhe demasiadamente a cabeça pensar nesse tipo de coisa. E, atualmente, a única coisa que ele mais resguardava era o fato de não se preocupar com nada. Já se tornara cansado de toda aquela porra.

Se ainda era deprimente? Sim, isso era. Mas ele se acostumara com a depressão, do mesmo modo que se acostumara com a poeira em seu chão, de, a cada dia, seus cigarros tornarem-se mais caros, com o fato de que o valor recebido em seu primeiro livro e único sucesso, já estar acabando, assim como se acostumara que não mais conseguiria escrever.

Ele simplesmente se acostumara a sobreviver. Não mais viver. E se acostumara a se acostumar. 

Sua vida era, de repente, tão simples! E deitado, no mesmo chão empoeirado, ao lado da mesma cadeira desconfortável, deixou-se morrer, calma e lentamente, com os olhos bem abertos para, quem sabe, espiar a Morte antes de partir. E assim ele se foi, sem nada, sem lembranças, sem ninguém. A única coisa que lhe pertencia, no fim, era aquela deslumbrante visão; “a Morte atravessando a sala empoeirada, sentando-se em sua cadeira antiga, observando-o fixamente, até o fim”.