segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Boa música e mau propósito



Criada em 1882 por um grupo de instrumentistas do primeiro escalão, a Filarmônica de Berlim é venerada por sua sonoridade. O chamado som de Berlim foi moldado pelo alemão Wilhelm Furtwängler (1886-1954) e aprimorado por seu sucessor, o austríaco Herbert von Karajan (1908-1989). Mas, mesmo com todas as qualidade musicais, a orquestra tem uma mancha em sua biografia. De 1933 a 1945, ela se tornou peça de propaganda do regime nazista.

O grupo sinfônico era uma síntese da suposta superioridade ariana, desde a origem e competência de seus integrantes até os compositores de seu repertório. O livro A Orquestra do Reich: a Filarmônica de Berlim e o Nacional-Socialismo 1933-1945, de Misha Aster, mostra que não só a orquestra aceitou o papel sem oferecer resistência como muitos de seus instrumentistas foram simpáticos ou omissos em relação ao nazismo.

Como a Filarmônica era uma entidade privada e mal tinha dinheiro para se manter, Joseph Goebbels, o ministro da Propaganda, teve a ideia de nacionalizá-la e assim teve presença frequente em eventos nazistas.

Mas é claro que essa "ajuda" nazista, não era bem-vinda para participantes judeus. Dos 109 instrumentistas, apenas quatro eram judeus, e eles foram embora, sem nunca mais voltar, conforme a hostilidade aumentava. Em compensação, vinte berliners integravam o partido nazista. O violinista Hans Woyworth era tão dedicado que ensaiava trajando um uniforme da milícia paramilitar.

Mas essa não foi uma exclusividade nazista. A mesma estratégia foi adotada pela extinta União Soviética com orquestras, balés e até circos. Uma boa música mas, um péssimo propósito!

Fonte: Revista Veja