quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Era uma vez...

 Feliz Ano Novo!
 
- Uma mocinha! –exclamara Donna ao apertar as grandes bochechas de Millie.

Instantaneamente, a pele tocada ficara rubra, ressaltando ainda mais as sardas que ali pintavam delicadamente aquela face branquinha. A garota de dez anos e pouco e cabelos alaranjados que desciam até metade de suas costas, sorriu para Donna, e desvencilhando das mãos de sua mãe, correu pela casa dos Way, subindo direto as escadas em busca de Gerard.

Entrou no quarto do amigo e deparou-se com o vazio. A única coisa que encontrou foram carrinhos espalhados pelo chão, uma pista de corrida quebrada e pôsteres de times de futebol. “Coisa de menino” pensou enquanto fechava novamente a porta e dava meia volta.

Na sala, seus pais conversavam animadamente com a anfitriã da casa. Nem sentiram sua falta ou perceberam que passara sorrateiramente por trás do sofá e agora corria em direção à porta da rua.

Precisava encontrar o amigo, hoje era o dia da virada, e ela adorava ver os fogos de artifício com todas aquelas formas, cores e estouros. E gostava mais ainda de escutar Gerard reclamando, rabugento como sempre, de toda aquela felicidade. Ele se dizia muito adulto para isso, mesmo tendo apenas um ano de diferença com Millie. Onze anos e pouco.
 
Num cantinho no quintal dos fundos, o menino de cabelos e olhos tão negros quanto à noite, estava agachado observando alguma coisa. Em uma das mãos segurava uma lupa e na outra uma grande pinça. Millie se aproximou silenciosamente para ver o quê ele fazia, e ao chegar bem perto, o chamou.
- o quê é, garota chata? –assustou-se Gerard, levantando logo em seguida e encarando-a.

 
- Vim brincar com você, Gee! –sorridente, respondeu. –o quê está fazendo?
- Coisas de adulto. Cai fora!

A ruivinha ficou parada ainda um tempo, perguntava-se quando o amigo havia virado adulto e ela não, e o porquê disso tudo. Observou o amigo pegar uma caixinha de vidro, guardar alguma coisa dentro e ir embora. A menina fez o mesmo caminho para voltar à casa dos Way, e entrou, sentando-se ao lado da mãe no sofá. O pai já havia encontrado Donald, dono da casa, e fora fumar um charuto e falar coisas de homens adultos.

As duas mulheres não paravam de tagarelar, nem repararam quando Millie sentou-se no sofá e colou as mãos entre as pernas, deixando o ombro cair desanimada.

Cada mínimo movimento do relógio era observado por ela, e o tiquetaquear das horas a deixava nervosa. Passaram-se uma, duas, três horas e finalmente algo, que não a conversa daquelas adultas chatas, aconteceu. Ao ouvir a campainha, saíra de um pulo do sofá e histérica avisou à dona da casa que atenderia.

Os convidados de Donna e Donald foram chegando, todos muito bem vestidos, sorridentes. Alguns traziam alguma champanhe e entregavam aos donos da casa. Millie olhava ansiosamente a procura de mais alguma criança com quem pudesse ao menos conversar, mas todos os convidados eram jovem, e provavelmente não desejam ter filhos tão cedo.

Sentada ao lado da mãe enquanto o jantar era servido, a ruivinha olhava por todos os cantos a procura de Gerard, mas não havia sinal dos cabelos negros ou do menino pelo salão. Catherine percebendo o olhar triste da filha, perguntou por que não estava brincando com Gerald.

- ele já é adulto, mamãe – suspirou a menina. -não pode mais brincar comigo.
Surpresa, a mãe deu uma risadinha, era inevitável não achar graça da situação da menina. Pegou-a no colo, e apertando bem entre seus braços, cochichou em seu ouvido: - nessa virada você já será adulta também minha filha, então poderá brincar com seu amigo. Não se preocupe. – estalou um beijo nas bochechas da filha.

Millie saltou do colo da mãe e subiu para o quarto dos donos da casa, deitou-se na cama, estava cansada já, tinha sono, queria dormir. Enquanto fechava os olhos, ficou imaginando se a mãe estaria mesmo falando a verdade, e se logo poderia ser adulta para brincar com Gee. Sem perceber, acabou adormecendo.

Quando acordou, já havia barulhos de fogos estourando lá fora, provavelmente chegara a hora da virada e estava ela ali, com a roupa toda abarrotada e dormindo. Ajeitando o vestido, desceu os degraus de dois em dois, e na sala encontrou todos os convidados da família Way em um absoluto silêncio, como se mentalmente todos estivessem fazendo a contagem regressiva. 
 
 Dando uma olhada ao redor da sala, Millie percebeu que todos os casais estavam juntos, seguravam suas taças de champanhe, sorriam um para o outro como se fossem idiotas. Mais uma vez, sem grande esperança, procurou por Gerald, não queria passar a virada sem ouvir as reclamações dele, lembrou o quanto era engraçado.

Enquanto descia os últimos degraus, levou um grande susto ao ouvir todo na sala começarem a contagem regressiva aos berros.

-5
-4

Continuava a procurar o amigo, sempre passara ao lado dele, não queria que esse ano fosse diferente.
-3
-2

Conseguiu o encontrar do outro lado da sala, sozinho, fazendo a própria contagem regressiva e segurando um copo de suco de frutos. Um enorme sorriu estampou os lábios de Millie e ela correu para junto dele.
-1

-FELIZ ANO NOVO. –exclamaram todos os convidados, em perfeita sincronia.
Ao lado de Gee, a ruivinha não pôde pensar muito, e imitando todos os outros casais que estavam ali na sala, colocou suas mãozinhas sobre as bochechas do amigo e colou seus lábios em algo novo, molhado e com gosto de frutas. Fechou os olhos sentindo seu estômago dançar dentro si, aproximando-se um pouco mais do menino antes de largar seu rosto e desgrudar seus lábios.

Gerard a observava confuso, assim como era uma coisa completamente nova para a menina, para ele também o era.

- O quê foi isso? –perguntou tentando evitar sorrir.
- Quando as crianças crescem Gee, elas fazem coisas de adulto, entende? – respondeu a garota sorrindo.

Millia saiu correndo a tempo de ver os fogos lá fora explodirem em cores e sons, dentro de seu peito algo também explodia, algo que não sabia explicar, mas sabia que era realmente muito bom.