segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Era uma vez...



Para Sempre

Quando a encontrei, pude notar em seu olhar vagando pelo horizonte, como se morto, que algo a afligia. Seu olhar perdido e amuado, a respiração pesada e disfarçada. A cabeça, pendente para o lado direito, como se nada lhe desse vontade de mexer, mudar de posição. O tique taquear do relógio batia estridente há tempos e, imagino eu, ela estava daquele jeito, imóvel o escutando.

Sabia eu que algo a incomodava e, mais ainda, sabia que a única coisa que ela precisava nesse instante era que eu a colocasse em meu colo, a ninasse como um bebê desamparado, apertasse meus braços em torno de seu frágil corpo. Protegendo-a de tudo, e de todos. 

Ela era a teimosia em pessoa, não gostava de conversar e admitir suas fraquezas, não gostava de pronunciar em alto e bom som o quê a machucava, como se ao falar sobre os problemas, eles pudessem tomar forma. Entretanto, quando eu a pegava desse jeito, ela se deixava levar e desabava a chorar em meu ombro, livrando-se de tudo que importunava seu doce e envergonhado coração.

Foto: istockphoto

Aos poucos seu peito parava de arfar, o coração batia mais leve, talvez seguro, e sem nem dizer uma palavra, olhava-me nos olhos. Era o ritual; enquanto ia sentindo-se segura novamente, encarava-me como se fosse o primeiro e o último dia de nossas vidas, o único. Tocava-me as bochechas lentamente com as costas da mão e deixava seu rosto encaixar no vão de meu pescoço, respirando meu perfume adocicado que tanto gostava.
Essa era ela, a mulher por quem me apaixonara. Sempre que se sentia de algum jeito incompleta, eu era a peça chave que faltava em seu quebra-cabeça. Assim como ela, pra mim o era, a única que me lia como um livro sem palavras, um livro aberto repleto de emoções, um coração palpitante e bobo.

Éramos assim um casal, um casal desde o primeiro dia em que nos conhecemos. Não era novidade, mesmo que a primeira vista, que havíamos nascido uma para a outra. Uma era o brinquedinho de encaixe da outra, perfeitamente encaixante, éramos uma só carne ligada com dois corações, no sentido mais clichê possível, porém não literal. Ela era o sorriso em meus lábios, e eu, as lágrimas em seus olhos.

O silêncio continuou pairando sobre a sala com uma única diferença mínima; agora, o sol que irradiava pelas janelas era de um laranja vivo, iluminando paredes e móveis do ambiente a nossa volta. Esse mesmo sol brilhava nos olhos, ainda inchados e vermelhos dela, refletindo um verde vivo por entre aquelas pupilas sofridas. Era tão mágico ver a mudança na cor daqueles olhos em tão poucos segundos. Uma força sublime dentro daquelas grandes cavidades, aquele olhar faminto de lobo e apaixonado de humano. A dualidade imposta na pele de minha alma gêmea.

Sussurrei algo em seu ouvido, pedindo que se levantasse. Lentamente ela me obedeceu e saltou graciosamente de meu colo, espetando o cabelo para trás das orelhas enquanto exibia um fraco sorriso com um forte pedido de desculpa e agradecimento ao mesmo tempo. Admirei a beleza de seus lábios, o contraste do sol em sua pele, os olhos arredondados e firmes. Não havia beleza maior que aquela. Isso era fato.

Enquanto dissecava suas feições, absorvendo cada pedacinho de beleza a qual pudesse me apegar para todo o sempre, segurei sua mão, entrelaçando nossos dedos como costumava fazer, e deslizei os lábios até que fossem de encontro com sua bochecha. A pele quente e macia absorveu meu toque estremecendo levemente, uma marca rosada tingiu a área beijada, o tremor percorrendo-lhe o corpo todo, fazendo-a sorrir.

Saímos de encontro à rua, um ar gélido de início de noite apoderando-se de nossos braços nus. Circulei seu ombro apertando-a contra meu peito. Era um abraço, aquecido com algo tão poderoso que roupa alguma tivera tanta coragem de imaginar; algo que vinha de chamas internas, labaredas de um coração ardente de paixão, dividas entre nós duas.

Os dias passavam e o outono chegara, suas folhas secas já se encontravam todas no chão, um presságio. O sol adquiria cada fim de tarde um rosa claro, até cair a noite.

Saíamos todo fim de tarde caminhar, os dedos entrelaçados, unidas. Eram comuns os olhares na rua, já havíamos acostumado com a intolerância das pessoas a nossa volta. Comentários sempre eram feitos, muitas vezes sem nenhum discernimento ou senso de respeito, falavam alto para que nós duas pudéssemos ouvir.

No começo aquilo não nos afetava em nada, e até agora à mim, não tinha efeito algum, mas aos poucos eu ia percebendo o quanto aquilo machucava minha menina, e por isso eu percebia, ou simplesmente imaginava, a cada dia que se passava, mais à distância dela, o buraco em que ela estava se escondendo sem que eu, nada pudesse fazer.

Ela melhorava, mas todo fim de tarde era a mesma coisa. Eu chegava do trabalho e ela já estava em casa, amuada voltava-se a mim, e eu a reconfortava, mas aquilo já não era mais o suficiente. Eu queria ajudá-la, mas a situação saíra aos poucos de meu controle.
Melhor que ninguém, eu sabia que a amava mais que tudo, ela dizia que me amava mais que tudo. Meras palavras, tão doces e ao mesmo tempo tão afiadas. Só não me machucava o peito mais do que vê-la mal e nada poder fazer.

Até lá, fora um mundo tão nosso, nossa vida particular, exatamente do jeito que planejávamos há tanto tempo. Íamos dormir imaginando o resto de nossos dias, abraçava-a forte e adormecíamos quase ao mesmo tempo, como se conectadas uma à outra. Era tudo tão interminável e sutilmente longo que aos poucos a falta foi se fazendo ser sentida, era impossível não sentir saudades dos dias em que só em me ver, seu sorriso disparava ao meu encontro, doce e feliz. Alegre em me ver.

O tempo foi passando, passando assim como toda a esperança de uma melhora que eu tinha, passou.

–nosso fim é esse. –dizia ela segurando-me as mãos.
–eu já sabia. –tentei sorrir, mas meu peito estava amargo, um tiro se infiltrando dentro do coração.
–você deve me perdoar, peço-te com todas as forças. –apertou mais meus dedos, forçando-os para perto de seu peito.
–não há o que ser perdoado. –respirei fundo desvencilhando de suas mãos. –você não fez nada.

Saí olhando-a pela última vez. Nunca mais veria aqueles lábios em formato de coração novamente, aquelas bochechas corarem quando chegava perto dela, o tremor de seus dedos ao tocarem os meus, o palpitar de seu peito junto do meu. Nunca mais a veria, para todo o sempre.

O céu escurecia aos poucos, trazendo a negritude refletida em meu peito, eu encontrava-me tão negra e vazia quanto o céu naquela noite. Sem lua ou estrelas, sem um ponto de apoio e um porto seguro, éramos nós dois naquela noite, sós.

Lembrei-me de nossos dias de felicidade, meus dias ao lado dela. Doía tanto, tirando-me o ar dos pulmões, cavando mais ainda o buraco em meu interior, mas não saia mais lágrimas, já havia esgotado-as há muito tempo. Meu coração secara, sem abertura alguma para outras pessoas, se ela nunca mais seria minha, eu não queria mais ninguém, aquela era minha última escolha.

 O vento bateu esvoaçando meus cabelos, a altura ali era grande, mas eu não tinha o que temer. Foram cinco anos tomando a coragem necessária e agora eu estava ali, com o futuro na palma de minhas mãos, assim como as mãos dela já estiveram.

Sem o que temer, sem chão aos pés.

–eu lhe prometi antes, e agora finalmente estou cumprindo essa promessa. –suspirei- eu te perdoo.

 Um reencontro, finalmente.

Quem sabe ao receber essa carta já seja tarde demais para mim, não que isso realmente me preocupe. 

A única coisa que me importo agora, depois da notícia, é com você, meu amor. Eu não a culpo se chegar a me odiar depois de tudo que tive de fazer conosco, mas quero que saiba, por meio desta, que tudo o que fiz foi o único meio possível de amenizar sua dor. 

Infelizmente fiz isso do meu jeito, pensei bastante no que eu achava melhor para você, sem pensar em nós duas, ou até mesmo em mim, a única coisa que me preocupava e, sempre me preocupou, foi você, desde sempre. Peço-te desculpas se julguei o modo de te ajudar errado, mas que escolhas tinha eu? Não queria que me visse morrer sem que nada pudesse fazer. Afastei-me para seu bem, afinal lidar com a morte é muito pior do que uma simples separação, pelo menos isso era o que eu achava. 

Adoeci, ou melhor, descobri minha doença, quando ainda estávamos juntas, e foram dias, e meses, para que chegasse a conclusão de que não queria que me visse morrer. E sim, os médicos e eu, tínhamos certeza de que eu iria morrer.

Ouvia notícias suas e via o quanto eu lhe fizera mal, mas eu não podia voltar atrás da decisão que havia tomado, era ridículo brincar com você assim, desse jeito. 

Meu coração está acabado, tanto quanto meu corpo e mente, e não culpo só a doença, mas também o fato de tê-la feito sofrer tanto. Mas responda-me, do fundo de seu coração, o que faria você no meu lugar? Sei que não vou concordar contigo, mas também não vou voltar atrás, achando que estava errada, mesmo sabendo que para você o melhor seria termos ficado juntas, mas eu a amo demais para sacrificar você junto de mim. Preferi acreditar que depois de tudo o que vivemos, você poderia encontrar outra pessoa e seguir sua vida. 

Esse foi meu único erro, ignorar tudo o que você sentia por mim assim, achando que eu seria tão fácil de ser substituída. Erro esse de todo ser humano, nós nunca percebemos o quão valorosos podemos ser para alguém.

Escrevo agora me desculpando por tudo, todo o erro ou acerto, por tudo o que te fiz sofrer, por todas as lágrimas que fiz escorrer de seus olhos. Eu quero seu perdão, necessito do seu perdão para poder morrer em paz, pois já estou morrendo, mas não quero ir antes que você saiba que tudo o que fiz foi pelo tamanho da paixão que eu sinto por você, pelo tanto que eu te considero, respeito e amo, acima de tudo. Porque você sempre foi meu bebê. A pessoa que eu mais amei em toda a minha vida e que vou amar além dela também.

Amo você, com todas minhas forças.
Meu bebê, meu doce e lindo bebê.