quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Era uma vez...





O corpo e o velho



As rugas contornavam-lhe os olhos escurecidos e amargurados de solidão, e enquanto descansava as pernas mal tratadas pelo tempo, sobre pequenos arbustos mortos, mirava perdido o vazio daquele grande jardim, que outrora cheio de flores, das mais belas e coloridas, hoje padecia, insosso e sem vida.

Desviando-lhe a atenção das memórias reprimidas que lhe angustiava o peito, ouviu penetrar madruga adentro, na rua mais próxima, um gemido ensurdecedor, seguido de uma movimentação corporal brusca que ecoava no ar. Assustado, talvez como nunca estivera em seus 55 anos de sobrevida forjada, colocou-se sobre as duas pernas com ajuda de uma terceira, feita de madeira polida, e com o mesmo ritmo das batidas de seu coração, quebrou a distância do desconhecido, chegando à rua.

Diante da falta de iluminação sobre os paralelepípedos, tropeçou antes de ouvir novamente um grito, que lhe arrepiou até os pelinhos da nuca e enrijeceu todo seu corpo de velho. Mais a frente, onde a falta dos óculos ainda prejudicava sua vista, pôde avistar o objeto borrado de sua curiosidade e medo. Três vultos afastaram-se de um quarto, deixando-o largado nas pedras, como um boneco inútil e gasto.

Ansiando pela resposta, que já sabia conhecer intimamente, aproximou-se da sombra e com a pouca iluminação que da lua pairava, agachou-se até mirar o verde-grama dos olhos secos, a boca entreaberta, onde um filete de sangue escorria tímido e quente, o corpo desnudo em fase de desenvolvimento, violentado pela maldade do ser humano, frio e calculista.

A moça de aparentemente treze anos não tivera a chance de sonhar com um futuro ou ao menos se despedir. Pega no escuro, sua última imagem talvez tenha sido do vazio do pobre bairro a sua volta. Morrera sozinha e fora velada sob as lágrimas de uma lua solitária e o espanto de um velho curioso.