quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Era uma vez...



Temos novidade no blog! O Estranho ao meu modo, a partir de hoje, vai receber os contos da jornalista e escritora Mellissa SaldanhaMensalmente teremos um pouquinho mais de literatura por aqui. Aproveitem!



Era uma vez um dia. O clássico dia em que o sol baixava mais cedo, recolhia-se ao seu descanso natural, deixando a noite gélida cair aos poucos, gutural e fresca, com um aroma adocicado pairando pelo ar; era o aroma da decadência, da felicidade, do desejo, da vontade, da decepção. Era uma vez um dia que se tornava noite em Curitiba.

Cumprindo com suas rotinas, na rua caminhavam pessoas apressadas, não era sexta-feira ainda, mas a sensação e o querer pediam que fosse. Em plena quinta-feira, os carros moviam-se com rapidez, os expedientes eram encerrados e quem podia dizer-se livre das preocupações do dia seguinte, caminhava tranquilo ao seu destino. 

 Eles se viram, encontraram-se, a mais velha, questão de meses, mas ainda sim, velha, havia ido buscar o aniversariante no serviço. Havia no ambiente aquela vontade de esquecer tudo ao redor, de onde estava, de poder mergulhar nos olhos esverdeados daquela e perder-se em breves instantes. Momentos curtos, simbólicos, apaixonados na mera apresentação da palavra, momentos vívidos e cheios de surpresas, também angustiantes.

Em menos de alguns segundos, deixaram-se levar pela vontade de sair dali, seguiram nas ruas cumprindo a missão de chegar a algum lugar, mas há que lugar o coração deles pediam para chegar? Será que havia algum específico? Ou era apenas a sugestão de estarem juntos, que o lugar já não mais importava. A mais velha, o mais novo, o mais novo aniversariante, a mais velha dos olhos esverdeados, às vezes, o mais novo também, mudavam de cor junto com a intensidade dos raios solares. Estavam juntos, certo? Mas ainda sim separados, uma fina teia que se criara entre eles.

Era desesperador pensar e apenas esperar a reação do outro, deixava-se então quieto, cada um do seu lado do véu, inquietos, batimentos cardíacos em frangalhos, suas mentes perturbadas com dúvidas e questionamentos sombrios, inesperados, tornavam-se envergonhados.

Era o meio do caminho, o meio para a mais velha, o meio para o mais novo. O meio, sem ao menos saber medir exatamente qual era o final. Não era o meio exato, mas ao encontrarem a inexatidão, pararam. Sentaram-se, pois, escondendo que no fundo alguma coisa estava errada, maquiava-se o sentimento de medo e agonia, era sempre assim.

O mais novo queria poder gritar para a mais velha, queria liberar o monstro que nascera e se escondia dentro de seu peito, as palavras e risadas inúteis e dispersas não o deixavam. Já a outra, se perdera tentando entender o que poderia estar equivocado, que não mais escutava, deixara de prestar atenção ao pedido mudo e aflito do mais novo, não mais se importava com a súplica errônea que se encontrava nos olhos deste. Perdera-se ao procurar entender que se esquecera de perguntar.

Havia raras horas de silêncios, de olhares, de percepções não existentes, de desejo e aflição, lado a lado eles se entendiam, sempre se entendiam, ou achavam que sim, sugestivos, esperavam que sim. Mas, a noite continuou caindo, entrando sobre eles como um pássaro raivoso, comendo o tempo que não possuíam, fazendo deste, uma brincadeira de faz-de-conta. 

Que tempo existia, se quando estavam juntos, este parecia não andar, fixo, martelava no relógio os segundos, que se tornavam minutos para logo após chegar e permanecer a primeira e última hora para eles.

O mais novo desejava se mexer, andar, fazer com que o tempo ingrato voltasse a correr, trazer novamente o sol, começar outro dia, fugir dali, agir invés de pensar. Porém, tinha medo, como sempre tivera. Medos e sensações as quais não o deixavam ser como realmente era, como realmente desejava. Então se deixou ficar. Esperar.  

Ao lado da outra, procurava mirar pouco em seus olhos, sabia o tamanho efeito que aqueles tinham sobre si, o poder de penetrá-lo e torná-lo seminu, desprotegido, uma grande ambiguidade, embaraçado. Não queria entregar-se àquele olhar meio esverdeado, não podia. Sentia o orgulho subir-lhe as veias, apostar em um jogo que há muito tempo já fora perdido, o coração jogava-lhe de lado, forçava, forçava e forçava, mas não se esforçava a entender para realizar.

Era o desconforto tamanho, era um casal ator, fingido ambos que nada poderia estar acontecendo. Entregavam-se a acreditar que deveria ser normal sentir-se meio desamparado no meio do caminho, na plenitude do tempo. O meio, o tempo, novamente eles.  Novamente eles, o mais novo, a mais velha, os olhos esverdeados, o aniversário.

Porém, pela maldição da noite, do tempo que aos poucos se consumia, dos almejos de ambos os corações silenciosos, a mais velha veio a se levantar, se posicionado, calma e acanhada a frente do outro, tocando levemente e por breves segundos os joelhos deste, esperando, buscando, implorando por alguma resposta. O mais novo permanecia paralisado, ansioso. Não sabia como se portar, mexer ou talvez sair. Só ficou, como sempre ficava.

Nessa hora, os olhares já não podiam ser evitados, e a tortura a qual estes facultavam a ambos, era obsoleta. Descrever-se-ia, mais tarde, como o essencial, porém no tempo, na noite, no meio em que se encontravam, o que ansiavam não se diria essencial, mas sim primordial. Era, talvez, como o início de tudo, ou talvez o fim. O início e fim, tão opostos, tão distantes, que não poderiam assim, encontra-se no meio, porém era ali que eles acabaram por se encontrar.

O dos olhos esverdeados queria tocar-lhe a pele, os lábios, as bochechas, os fios de cabelo castanho, porém proibira-se, angustiado, inibido, vaidoso. A mais velha também desejava tocar-lhe a face, o vermelho das bochechas, a boca entreaberta, mas o medo que se apoderara dela, era um tanto quanto maior que a vontade. 

Estava ali o medo de ambos em seguir, em sair do meio, em decidir. 

Acredito agora que se dependesse do mais novo, nenhum daqueles sentimentos ou desejos seriam desvendados, cada um ia embora ao seu destino final com mais e mais receios, incrédulos de que aquilo que tanto temiam poderia estar acontecendo.

Mas esse não era o fim, não de um belo Conto de Fadas, talvez. Não era o lugar ao qual, ambos, juntos, unidos, pretendiam chegar. Ou era? Algo era pra ser feito. Talvez. E o tempo corria, levado pela brisa da noite que caía. Qual seria o jeito certo? Se é, afinal, que este existia. Porém, como num jogo de pôquer, a mais velha apostou todas suas fichas. 

E novamente a mais velha, o mais novo, o nascimento, a porta da alma. Os lábios trêmulos, ressecados, onde a respiração pesada só reproduzia o que vinha a ser sentido no ínfimo deles. Tudo tão acelerado, o tempo, o caminho, as batidas. Eles precisavam de respostas e elas eram urgentemente imploradas, por ambos. As respostas precisavam vir logo.

Mirando os olhos do aniversariante, a mais velha inclinou-se lentamente, um milímetro a cada cinco segundos, ou talvez cinco minutos, era o receio que se lia em sua face, cheia de marquinhas da infância, tamanho desconforto. Mas, não se dispôs impedida, aproximou, testa com testa, a ponta dos narizes encostando-se, o ar saindo ofegado dos lábios, o calor do hálito. A apreensão, uma busca por respostas, na variedade de sentimentos, algumas escolhas. E as fichas. 

Beijaram-se. Ou melhor, a moça dos olhos esverdeados juntou seus lábios ao do mais novo, tudo tão calmo, tão leve, tão inseguro.

E de repente, lágrimas. E o desespero. E o medo de que aquele fosse o último, tinha o gosto da separação.  Fora como o primeiro, mas com a angústia de saber-se que não o era, e que se funcionava desta forma, só poderia ser o fim. Afinal, no meio não há essas dúvidas. 
Desce a cortina do espetáculo, atores correm de um lado a outro, a cortina sobe. Ato número dois:

O chão sumiu, o cenário mudou, até as roupas suadas daquele nervosismo extremo, eram outras... Pálido, doente, talvez como um enfermo que vê, em seu último suspiro, a felicidade de sua vida.  Como afinal, uma coisa ruim pode ter um sentimento tão alegre, no final?

Uma compreensão entre os dois não mais era possível, nada descritivo, era algo tão diferente, tocava no mais profundo dos sentimentos, do desejo à repulsa, da tristeza com a esperança. Sabia-se que, de repente, os corações se escutavam, liam, cada qual os movimentos do outro, descobrindo, a cada carícia, dada como se fosse única, o amor.  

A vontade do mais novo era de segurar em seus braços a magreza da mais velha, como se a qualquer minuto, quando abrisse os olhos, ela não mais estivesse ali a sua frente. Não poderia suportar a ideia disso. Não o fez, talvez insegurança, procurou não demonstrar o que tem sentido, talvez medo também, medo de ser o único a sentir. Não iria demonstrar o quão afetado na presença da mais velha, ficava.

 A mais velha também não o fez, não se sabe se era esse mesmo o desejo desta e qual talvez tenha sido o motivo que a impedira. Pode ser que o roteirista tenha se esquecido de avisar. Mas, pelas reações, talvez nem necessário fosse saber de tal resposta.
Era tão confuso, tão complicado... Ou talvez não o fosse, mas o silêncio havia criado a dificuldade. O destino pregando-lhe uma peça? Ou talvez era a vida, apenas ditando as regras.

Nunca será de conhecimento de alguém, e muito menos novamente sentido, todas as confusões e angústias que surgiram naquele fim de dia. Foi um pôr do sol, um humor ou talvez dois, o aniversário, os olhos esverdeados, o tempo, o meio, o início e o fim. Sim, foi tudo isso e mais além, de uma forma tão simbólica, que nunca será possível realmente explicar e descrever o que se passou com aqueles jovens. 

E foi assim que terminou o era uma vez...

Afinal, era uma vez um dia que deixou a noite tomar conta do céu de Curitiba. De acordo com as regras, cada um foi para seu destino. Se estavam juntos ou não? Não é de se saber, mas foram, esperando que no próximo instante que surgisse, pudessem voltar, não ao meio, mas a eles.