quinta-feira, 23 de agosto de 2012

O CENTENÁRIO DO ANJO PORNOGRÁFICO

Cem anos de Nelson Rodrigues

Polêmico e provocativo, Nelson Rodrigues completaria cem anos na quinta-feira (23). O autor apresenta, em suas obras a morte e o amor, sentimentos que sempre estiveram presentes na sua vida, no jornalismo e, também, em suas obras. Precoce, Nelson Rodrigues iniciou sua carreira no jornalismo aos 13 anos, na editoria policial do jornal “A Crítica”, de seu pai, Mário Rodrigues. Viu um dos seus irmãos serem assassinados e posteriormente o pai faleceu por trombose cerebral.

Mudou-se do Recife para o Rio de Janeiro. E foi na Rua Alegre, situada na Zona Norte da cidade, que se inspirou para crônicas e peças teatrais. Assim, surgiram o perfil psicológico das vizinhas fofoqueiras, das mulheres adúlteras, das brigas conjugais e, também das tragédias e mortes. Ou seja, características de situações provocadas pela moral vigente da classe média dos primeiros anos do século XX.

Nelson Rodrigues morreu em 1980 aos 68 anos, por complicações cardíacas e respiratórias. Dois meses depois, a esposa Elza Bretanha atendia ao pedido do marido — de, ainda em vida, gravar o seu nome ao lado do dele na lápide de seu túmulo, sob uma frase típica de Nelson: "Unidos para além da vida e da morte. E é só". 


NO TEATRO


A peça Vestido de Noiva

Nelson entrou na dramaturgia, sem o intuito de fazer sucesso. Ele queria apenas uma segunda fonte de renda. Mas se tornou referência e o marco do teatro moderno brasileiro. Segundo o crítico teatral Sábato Magaldi, as peças de Nelson Rodrigues são divididas em psicológicas, míticas e tragédias cariocas. 

Sua primeira peça foi “A mulher sem pecado” (1941),e tinha o objetivo principal de ser uma chanchada ,estilo de texto com humor muito frequente e aceito na época. Mas, devido às características do autor, ela acabou se tornando trágica, com a presença de ciúmes obsessivos. Porém, o dramaturgo teve sua consagração na arte com a peça psicológica “Vestida de noiva”, onde eram apresentados inovações teatrais, como a representação  dividida em três planos: da alucinação, da memória e da realidade. 

Para o historiador Edson Liberato a importância de Nelson para o teatro foi a mudança de linguagem que ele proporcionou. “A maneira como falamos e a maneira como escrevemos não é a mesma, mas, antes de Nelson Rodrigues, o teatro funcionava desse jeito”. Edson acredita, também, que é preciso conhecimento prévio de vida para compreender plenamente as obras do autor, e comenta que interessante trabalhar a literatura com os jovens. “É necessária certa maturidade para poder ler Nelson Rodrigues, mas o desafio de se ter contato com um autor polêmico mais cedo, acaba sendo interessante. Caso suas obras venham a ser trabalhadas em sala de aula, ainda no ensino médio, cabe ao professor saber mediar as possíveis interpretações”.

Segundo a jornalista, Mellissa Saldanha, o tema abordado na peça “Vestido de noiva” da um toque especial à obra e mostra sua importância para a sociedade local. “’Vestido de noiva’ foi a primeira obra que li do Nelson Rodrigues, e ela se tornou uma das minhas prediletas. Por tratar de uma forte crítica à burguesia carioca da época, aliás, a mesma burguesia que aplaudiu em pé ao término do espetáculo.  Nelson se supera e mostra o que melhor sabe fazer – agradar a sua plateia ao mesmo tempo em que a insulta”.


CENTENÁRIO DE NELSON EM CURITIBA


Unidos para ler e homenagear Nelson Rodrigues

Curitiba vive o mês de agosto imersa nas obras de Nelson Rodrigues. Com programação de cinema, literatura e teatro. 

A Casa da Leitura Dario Vellozo promove três encontros dedicados à reflexão e ao debate dos  famosos sucessos literários do autor: “Anjo Negro”, “Vestido de Noiva” e “A Vida Como Ela É”. Todas as sessões literárias são acompanhadas de exibição de vídeos, imagens de filmes, encenações e montagens. As atrizes Ana Caroline Gabbi e Juliana Liconti são voluntárias para encenações da obra, fazendo com que os textos alcancem maior dinamismo. 

Para o mediador das rodas de leitura, Alisson Freyer, o intuito é despertar o interesse pela leitura para todas as idades. “Ler é prazeroso e a leitura conjunta é ainda melhor. É isso que nós queremos passar com as rodas de leitura; Independente de sexo ou idade, o importante é ler”. 
Para a leitora Ana Letícia Bacellar é extremamente importante que os jovens leiam Nelson Rodrigues pelo seu modo de enxergar o mundo. “Nelson vai ao contrário da realidade, ao pensamento em massa, e isso serve como conscientização para a sociedade”.


O mediador da roda de leitura, Alisson Freyer
As atrizes Ana Caroline e Juliana, que trouxeram
mais dinamismo para a leitura